Ao fim do ano de 2014
Outros papos
quarta-feira, 17 de dezembro de 2014
quinta-feira, 13 de novembro de 2014
o adeus de Manoel de Barros
José Carlos Peliano
o mano El de barros se vestiu
depois de 97 roupas de lagartixas
sabiás, aranhas, pedras e lampiões
foi espreguiçar no mato onde brota vaga-lumes
entre gerânios, minhocas e chuviscos
cantarolar os ventos safados de levantar as saias das moças
cochichar borboletas no ouvido das tardes
seguir os tombos dos cometas desapetrechados
que ele sabia segurar em arapucas e transformar em versos
que deixaram uma saudade danada de grande
neste mundão esvaziado de suas mais belas traquinagens
terça-feira, 11 de novembro de 2014
Passado a limpo
José Carlos Peliano
o rio leva o mar e o mar o rio
a voz persegue o eco e ele a voz
o fio traz a luz e a luz o fio
vive o passado em nós e nele nós
vem no vento e na pele o arrepio
carrega a linha com o pano o cós
folhas do outono já caiem com frio
o passado é o tempo e sua foz
em mim vou eu e todos os meus dias
ao pensar deixei de estar como e quando
à frente coisas idas, fugidias
agora é o passado observando
do cerco escapam só as fantasias
com a eternidade em contrabando
domingo, 14 de abril de 2013
Angélica Freitas
reinvenção do front
sabe bala zunindo
e soldado lendo
carta de amor
na trincheira
zzzzzzpiiiiiiiiiiiiiiiuuuu?
sou eu,
love-lorn soft-porn
tenho sempre
para a Musa
um poema na traqueia
uma prosa
sob a blusa
musiké
tenho pavor de festinhas
aparo as arestas da farsa
visto minha roupa nova
mas hoje não saio de casa
*
emoção sem opção
viajar no avião
da manteiga aviação
minas gerais
a pia pinga
até a medula a pia pinga
galo canta a pia pinga
noite e dia pinga pinga
você cresceu você casou
houve um golpe militar
a pia pinga e o menino
da esquina virou padre
a pia pinga
a pia pinga toda
a caixa d'água
terça-feira, 2 de abril de 2013
Eudoro Augusto
Despertar
O telefone é um susto.
Do outro lado da linha
Alguém articula um bom-dia
rouco de pedra.
Engano
Eu não moro mais aqui
Disciplina
Justamente porque a história da minha vida
mais parece um quarto desarrumado
não quero morrer no meio desta desordem.
E assim antes de se matar
Lídia Helena sacode o tapete
estica os lençóis e o edredon
guarda no armário as roupas íntimas
espalhadas sobre o sofá.
O gato assiste a tudo lambendo as patas
em movimentos lentos e regulares.
Ana C
Outra vez nos braços do amor perdido.
Sempre o declive. Sempre a vertigem.
Ás vezes o abismo.
Posso inflar
as velas de outra imagem
e assim navegar teus canais azulados,
minha lúcida amiga.
No céu-da-boca desta manhã
fica apenas um risco:
relâmpago longo como o olhar.
Luz. Outra luz. Louca luz.
O mesmo anjo que beija tua orelha fina
invade o cinema como um vento fictício
Abril
Não tenho mais olhos
pra enfrentar a claridade de abril.
Não tenho mais ouvidos
pra escutar você me dizer
que o amor não tem direito a sinceras desculpas
ou que o ódio não precisa de texto.
Não tenho mais saco
pra passar a vida pensando o inexplicável
ou tentando afastar um sentimento~
lento demais para ser verdadeiro.
e rabisca cicatrizes bem legíveis
no coração deserto do meio-dia.
Cecília Bossi
Vento verde
Enxerguei o vento
Estranho corpo bramindo
Mãos verdes dedos velozes.
(estranhos às minhas dezenas digitais).
Enxerguei-o violento pinheiral
Sacudindo as ondas revoltas do mar
Do mar que não me quis amar.
E enxerguei a minha própria sombra
ventada pelo ar.
À procura de poesia
Se vieres ao meu encontro
Procura minha presença
como um pássaro o seu ninho
somos o que a hora é pro relógio
pontuais como o tempo
e o nosso estilo aponta a faca para o arco.
-
Se me encontrares a minha essência esvaída
e a porta fechada
não desistas
há um animal pulsando nas veias abertas do meu pulso
o mar revolto e aberto
um navio atracado no cais procurando o porto
-
e a minha alma ancorada
procurando a tua libertação.
Flores
As flores que foram brotos, mudas semente
saíram da moda
as flores que eu queria
mudaram de praça
ninguém as olha ninguém as quer.
---
Saudades dos bons tempos que eram maus
de esperas tão inúteis colossais
e era sempre a desordem no meu caos
sem mais ver tuas roupas nos varais
Saudades sem retornos nos degraus
tão distantes das horas temporais
me atritando nas pedras, nos calhaus
me quebrando nas rochas de corais
Por ter saudades vivo em solidão
sem oásis, nas dunas do deserto
Não vejo minha própria escuridão,
mais cega do que a noite em vão te sigo
e não te vejo, nem de longe ou perto
eternamente imóvel em teu jazigo
ninguém as olha ninguém as quer.
---
Saudades dos bons tempos que eram maus
de esperas tão inúteis colossais
e era sempre a desordem no meu caos
sem mais ver tuas roupas nos varais
Saudades sem retornos nos degraus
tão distantes das horas temporais
me atritando nas pedras, nos calhaus
me quebrando nas rochas de corais
Por ter saudades vivo em solidão
sem oásis, nas dunas do deserto
Não vejo minha própria escuridão,
mais cega do que a noite em vão te sigo
e não te vejo, nem de longe ou perto
eternamente imóvel em teu jazigo
Alex Polari de Alverga
Idílica estudantil
Nossa geração teve pouco tempo
começou pelo fim
mas foi bela a nossa procura
ah! moça, como foi bela a nossa procura
mesmo com tanta ilusão perdida
quebrada,
mesmo com tanto caco de sonho
onde até hoje
agente se corta.
Dia da Partida
Aí eu virei para mamãe
naquele fatídico outubro de 1969
e com dezenove anos na cara
uma mala e um 38 no sovaco,
disse: Velha,
a barra pesou, saiba que te gosto
mas que estás por fora
da situação. Não estou mais nessa
de passeata, grupo de estudo e panfletinho
tou assaltando banco, sacumé?
Esses trecos da pesada
que sai nos jornais todos os dias.
Caiu um cara e a polícia pode bater aí
qualquer hora, até qualquer dia,
dê um beijo no velho
diz pra ele que pode ficar tranqüilo
eu me cuido
e cuide bem da Rosa.
Depois houve os desmaios
as lamentações de praxe
a fiz cheirar amoníaco
com o olho grudado no relógio
dei a última mijada
e saí pelo calçadão do Leme afora
com uma zoeira desgraçada na cabeça
e a alma cheia de predisposições heróicas.
Tava entardecendo.
Indagações
Quando me interessei pelo mundo
e procurei o sentido da vida
a ética dependia da pontaria
a certeza era fácil
estava mais nas entranhas
e no coração
do que nos livros.
Hoje a coerência dos sistemas
me parece ridícula
e se nos livramos
de uma certa pressa
entendendo melhor
a vida e a teoria,
isso não significa que o problema da opção mudou.
Zoológico Humano
o que somos
é algo distante
do que fomos
ou pensamos ser.
Veja o mundo:
ele se move
sem nossa interferência
veja a vida:
ela prossegue
sem nossa licença
veja sua amiga:
ela se comove
por outros corpos
que não o seu.
Somos simplesmente
o que é mais fácil ser:
lembrança
sentimento fóssil
referência ética
apenas um belo ornamento
para a consciência dos outros.
A quem interessar possa:
Estamos abertos à visitação pública
sábados e domingos
das 8 às 17 horas.
Favor não jogar amendoim.
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