Peliano costuma brincar que a poes-ia e foram os poetas que a trouxeram de volta! Uma de suas invenções mais ricas é conseguir por em palavras lirismos maravilhosos, aqueles que percebemos de repente e temos a impressão que não vamos conseguir exprimi-los. Exemplos: de Manoel de Barros -"Deixamos Bernardo de manhã em sua sepultura. De tarde o deserto já estava em nós"; de Ernesto Sabato - "Sólo quienes sean capaces de encarnar la utopía serán aptos para ... recuperar cuanto de humanidad hayamos perdido"; de Thiago de Mello - "Faz escuro mas eu canto"; de Helen Keller - "Nunca se deve engatinhar quando o impulso é voar"; de Millôr Fernandes - "Sim, do mundo nada se leva. Mas é formidável ter uma porção de coisas a que dizer adeus". É como teria exclamado Michelangelo que não fora ele quem esculpiu Davi, pois este já estava pronto dentro da pedra, Michelangelo apenas tirara-o de lá. Então, para Peliano, o lirismo é quando nos abraça o mundo fora de nós, cochicha seu mistério em nossos ouvidos e o pegamos com as mãos da poesia em seus muitos dedos de expressão.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Mãos dadas



José Carlos Peliano

tua mão
em minha mão
o universo dedilhado
silêncio a silêncio

tua mão
segui-la sempre
nem que seja agora
o infinito entre os dedos

minha mão em tua mão
a morte de tudo em volta
a ressureição no átimo de amor
no átomo que incendeia por último

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

tributo a Amy Winehouse

tributo a Amy Winehouse
                         josé carlos peliano

a casa de vinho vazia
a taça quebrada jaz
a boca seca de voz
hei mi ! não há nota musical
a canção não está mais aqui



segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Juan Gelman




Epitafio

Un pájaro vivía en mí.
Una flor viajaba en mi sangre.
Mi corazón era un violín. 

Quise o no quise. Pero a veces
me quisieron. También a mí
me alegraban: la primavera,
las manos juntas, lo feliz. 

¡Digo que el hombre debe serlo! 
Aquí yace un pájaro.
Una flor.
Un violín.



Saber

El poema nada en un viento y brilla.
No sabe quien es hasta
que lo arrastran aquí, donde
seguramente morirá
a la intemperie de las bestias.
Me gustaría entender a las bestias
para entender mi bestia. La
 realidad hace gemir con jadeos de animal.
¿Qué gracia fue ganada en su respiración?
Ninguna que no fuera perdida.
Abajo de lo suave crepita la sospecha.
En estas manos.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014





o adeus de Manoel de Barros

                                                 José Carlos Peliano

o mano El de barros se vestiu
depois de 97 roupas de lagartixas
sabiás, aranhas, pedras e lampiões
foi espreguiçar no mato onde brota vaga-lumes
entre gerânios, minhocas e chuviscos
cantarolar os ventos safados de levantar as saias das moças
cochichar borboletas no ouvido das tardes
seguir os tombos dos cometas desapetrechados
que ele sabia segurar em arapucas e transformar em versos
que deixaram uma saudade danada de grande
neste mundão esvaziado de suas mais belas traquinagens

terça-feira, 11 de novembro de 2014



Passado a limpo


                                                         José Carlos Peliano

o rio leva o mar e o mar o rio
a voz persegue o eco e ele a voz
o fio traz a luz e a luz o fio
vive o passado em nós e nele nós

vem no vento e na pele o arrepio
carrega a linha com o pano o cós
folhas do outono já caiem com frio
o passado é o tempo e sua foz

em mim vou eu e todos os meus dias
ao pensar deixei de estar como e quando
à frente coisas idas, fugidias

agora é o passado observando
do cerco escapam só as fantasias

com a eternidade em contrabando