Peliano costuma brincar que a poes-ia e foram os poetas que a trouxeram de volta! Uma de suas invenções mais ricas é conseguir por em palavras lirismos maravilhosos, aqueles que percebemos de repente e temos a impressão que não vamos conseguir exprimi-los. Exemplos: de Manoel de Barros -"Deixamos Bernardo de manhã em sua sepultura. De tarde o deserto já estava em nós"; de Ernesto Sabato - "Sólo quienes sean capaces de encarnar la utopía serán aptos para ... recuperar cuanto de humanidad hayamos perdido"; de Thiago de Mello - "Faz escuro mas eu canto"; de Helen Keller - "Nunca se deve engatinhar quando o impulso é voar"; de Millôr Fernandes - "Sim, do mundo nada se leva. Mas é formidável ter uma porção de coisas a que dizer adeus". É como teria exclamado Michelangelo que não fora ele quem esculpiu Davi, pois este já estava pronto dentro da pedra, Michelangelo apenas tirara-o de lá. Então, para Peliano, o lirismo é quando nos abraça o mundo fora de nós, cochicha seu mistério em nossos ouvidos e o pegamos com as mãos da poesia em seus muitos dedos de expressão.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Hilda Hilst

de sonetos que não são

Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha


Objeto de amor, atenta e bela.
Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha.)


Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel


Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra.

de luz do desejo

Colada à tua boca a minha desordem.
O meu vasto querer.
O incompossível se fazendo ordem.
Colada à tua boca, mas descomedida

Árdua
Construtor de ilusões examino-te sôfrega
Como se fosses morrer colado à minha boca.
Como se fosse nascer
E tu fosses o dia magnânimo
Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer.

de Amavisse

Como se te perdesse, assim te quero.
Como se não te visse (favas douradas
Sob um amarelo) assim te apreendo brusco
Inamovível, e te respiro inteiro


Um arco-íris de ar em águas profundas.
Como se tudo o mais me permitisses,
A mim me fotografo nuns portões de ferro
Ocres, altos, e eu mesma diluída e mínima
No dissoluto de toda despedida.


Como se te perdesse nos trens, nas estações
Ou contornando um círculo de águas
Removente ave, assim te somo a mim:
De redes e de anseios inundada.



Entrevista: Hilda Hilst

Por Pedro Maciel

‘Em 50 anos serei considerada genial’

Às vésperas dos 70 anos, escritora diz que a maturidade dá a certeza que não compreendemos nada.

Nascida em Jaú, em 1930, Hilda Hilst estreou em 1950, com o volume de poemas “Presságio”. Desde então publicou mais de 30 livros de poesia, narrativa e teatro. Hoje a escritora de “Tu não te moves de ti” garante que parou de escrever por ter esgotado em sua obra a necessidade “imperiosa” de se expressar que, segundo ela, levou à literatura. A poeta, que respondeu às perguntas por escrito, discorre sobre vários temas numa linguagem repleta de reticências _ e por isso completamente próxima à sua obra. As respostas de Hilda Hilst são quase fábulas, falas um tanto comovidas com a existência. “Não sei se a minha vida daria boa poesia”, duvida ela, para quem a poesia, desde Shakespeare, jamais mudou nada no mundo.


1. Hilda, você escreve para responder perguntas que às vezes não têm respostas?

- Na maior parte da vezes sim. No meu texto Qadós, por exemplo, isso se re­vela mais insistentemente. O personagem, desde criança, já perturbava os pais por ser acentuada­mente perguntante e recebia os apelidos de Qadós-pergunta-coisa, Qa­dós-disseca-tripa. Depois, já adulto, continuou se perguntando:


“(Qadós)... quando comecei a perguntar de manhãzinha:

O que me dizes do administrador do Cosmos?

E o administrador sabe de que maneira deve ser administrado para che­gar com sabedoria e perplexidade ao seu último estágio?

E se ele, o administrado sabe disso, que importância tem o admi­nistra­dor?

Fui indo aos solavancos muitas horas e terminei com esta jóia: o meu ser pergunta é um estado imutável?”


Mas escrevo principalmente pela necessidade imperiosa de me expressar.


2. Vale a pena escrever poesia? Não seria melhor transformar a vida em poesia do que fazer poesia com a vida?

- Não sei o que você quer dizer com “valer a pena”. Quer dizer fama, prestígio, di­nheiro? Palavras simples podem significar coisas complexas. Heidegger escre­veu um verdadeiro tratado sobre “O que é uma coisa?”. Poesia é a necessidade de se expressar. Não sei se a minha vida daria boa poesia. Sei que antes de tudo, importa poder se ex­pressar.


3. A poesia é capaz de transformar o mundo?

- Não acho que seja. Mesmo um grande poeta não pode transformar o mundo. Shakespeare era deslumbrante mas não transformou o mundo.


4. Hoje em dia é possível surgir um poeta que tenha a voz do povo ou a poesia nes­tes tempos pós-modernos é apenas dos poetas so­litários?

- No Brasil, a voz do povo é o futebol, a música, a dança. Se “voz do povo é voz de Deus” talvez Deus goste muito de dançar. Sei muito pouco sobre Deus. Talvez ele passe horas falando ao telefone e por isso tudo está como está. Mas, mesmo solitário, o poeta pode ter várias vozes. Os grandes poetas são sempre solitários e falam muito so­bre a ausência.


5. Octávio Paz diz que “a história da poesia moderna é a do contí­nuo dilaceramento do poeta, dividido entre a moderna concepção do mundo e a presença às vezes intolerável da inspiração.”

- A inspiração existe, embora João Cabral não acredite. Ela vem subitamente e pode dar até febre física. É magnífico receber algumas vezes a inspiração. É um dom divino com o qual somos agraciados.


6. Ainda hoje nascem poetas simbolistas e saudosistas, sonetei­ros e bordadeiras. Se pelo menos fossem repentistas...

- Se você se refere a “bordadeiras” como aquelas mulheres que durante a revolu­ção francesa assistiam aos julgamentos bordando meias e eram deno­minadas de tricoteuses, isso é terrível, pode ser medonho. Acho que sem­pre é bom quando nasce um bom po­eta, seja repentista ou não. Mas é ne­cessário tentar inovar.


7. Poeta é aquele que sobrevoa o abismo?

- Sim. Sobrevoei muitos mas, nunca tive coragem de me lançar sobre eles. Sem­pre tive uma boa dose de auto-preservação.


8. Há algum sentido, se é que há algum sentido, nas palavras e fra­ses do poema?

- Aquele que se expressa, sempre tenta fazer algum sentido. Não um sen­tido convencional, muito menos na poesia. Ele não fala sobre o nada e para nada.


9. O ritmo é o núcleo da poesia?

- Não só. É um conjunto. O ritmo, a forma, o fundo.


10. Valéry comparou a poesia com a dança e a prosa com a mar­cha...

- Minha prosa não é uma marcha, é sempre uma prosa poética. Não acredito nessa di­ferença.


11. A palavra poética é a revelação da própria imagem? Um po­ema só tem sentido a partir de suas imagens?

- Um poema não tem sentido apenas a partir de imagens, mesmo as ima­gens tendo grande importância. Nos meus versos “Como se te perdesse assim te quero. / Como se não te visse (favas douradas / Sob um amarelo) assim te apreendo brusco / Inamoví­vel, e te respiro inteiro / Um arco-íris de ar em águas profundas.” existem lindas ima­gens mas, não apenas isso.


12. Falemos da crítica. Os críticos mandarins ignoram a sua po­esia ou a tra­tam como se você fosse uma poeta apenas erótica. Alguns a classificam como uma poeta por­nográ­fica...

- Os críticos mandarins que leram minha poesia não a ignoram e sabem que não posso ser classificada de poeta erótica. Anatol Rosenfeld, Jorge de Sena, Antônio Hou­aiss falaram muito bem sobre meu trabalho. Dos meus 22 livros de poemas, apenas um, “As Bufólicas” pode ser considerado pornográfico mas, eu sei que ele tem principal­mente humor. E dos meus 11 de prosa, apenas 3 podem ser conside­rados pornográficos, mesmo não o sendo exclusivamente. Wilson Martins usou er­roneamente a palavra “bordelesca” ao se referir ao meu livro “Do Desejo” mas ele não o deve ter lido. Po­rém, estou em boa companhia. Du Boccage também sofreu esse tipo de confusão, mesmo tendo, na quase totalidade, uma obra lírica, infelizmente desconhecida pela grande maioria. D. H. Lawrence comentou muito bem o que é pornografia, em 1925 no livro “Pornografia e Obscenidade”. Não sei por que ainda fazem tanta confusão hoje em dia. Nos jornais, adoram colocar tí­tu­los chamativos. A “Folha de São Paulo”, na rese­nha do meu livro “Estar Sendo-Ter Sido”, usou o título “Uma Jeremi­ada Pornográfica”, deixando claro que não entenderam do que se tratava. No jornal francês “Liberation”, Eric Loret fez um comen­tário brilhante sobre “A Obscena Senhora D”, comparando-me a Ba­taille. Alguém, na redação, colocou o título “La co­chonne Hilsterique”. Acho que nem na França me entenderam.


13. Nietzsche diz que “é por nossas virtudes que somos bem puni­dos”.

- Não concordo inteiramente. Acho que quase ninguém lê Nietzsche, que foi uma pessoa deslumbrante. Um dia ele se comoveu tanto vendo um ca­valo sendo açoi­tado que começou a chorar, abraçou e agarrou a cabeça do cavalo, caiu no chão e acabou sendo levado para o hospício.


14. A leitura crítica deveria ser uma interpretação da beleza como um objeto de saber...

- Você conhece a beleza? A idéia da beleza é muito difícil. Você pode ter a ilusão da beleza que você já viu um dia mas, não sabe onde. Alguns místicos contempla­ram a beleza em Deus, durante os seus êxtases. Santa Angela de Foligno, que vi­veu no século XIII, disse ter visto a beleza de Deus numa visão. Mas, acrescen­tou que “Ali não havia nem sombra de amor”. Isso me deixou tão impressionada que comprei sua biografia. Tal­vez nós todos, um dia, tenhamos visto o rosto de Deus e por isso evocamos a beleza.


15. Você parou de escrever por causa da crítica, ou das editoras que não di­vulgam os poetas, ou ainda porque os leitores estão surdos para a poesia?

- Parei de escrever quando senti que tinha dito tudo o que eu sabia e da melhor forma que fui capaz. Fiz o esforço maior que pude para me ex­pressar. Não adianta mais dar explicações nem entrevis­tas. Se não entenderam, eu não sei dizer de outra forma. Se me vi­esse al­guma coisa com a força que me vinha, voltaria a escrever, seja prosa ou po­esia. Mas, não tem mais vindo. À medida que vamos envelhecendo, descobrimos que não compreendemos nada.


16. Gide diz que “todas as coisas já estão ditas mas, como nin­guém escuta, é pre­ciso re­começar sempre”.

- Blake, Bataille, Rimbaud, Baudelaire, Beckett, Henry Miller, tan­tas outras pessoas deslumbrantes já dis­se­ram. Eu sinto que já disse tudo o que devia. Acho que os novos artistas, os novos talen­tos, devem recomeçar sem­pre sim.


17. Ler poemas em voz alta irrita os deuses aposentados...

- Se são deuses, nunca são aposentados. É preciso saber ler muito bem a poesia. Pa­blo Neruda, Drummond, não sabiam ler bem seus poemas. Ou­vindo uma gra­vação de Cecília Meirelles declamando seus poemas fiquei surpresa. Eu sempre soube ler poesia muito bem, tanto a minha própria como a dos outros. Quando eu tinha 19 anos, Oswaldo de Andrade me fez ler o poema “Une Charogne” do “Flores do Mal”, de Baudelaire, em voz alta.


18. Você concorda que, geralmente, os poetas são aplaudidos por­que traba­lham em fa­vor da língua comum e não porque inventam uma forma origi­nal de linguagem?

- Não da língua comum. Quando você escreve poesia ou prosa, tua von­tade é sempre dar um passo além. Como já teve Shakespeare, Rimbaud, Joyce e tantos outros maravi­lhosos e geniais, é muito difícil dar esse passo, ser original.


19. Falemos do tempo. A eternidade está no presente?

- Os antropólogos dizem que para todos os homens a ação onírica une o passado e o futuro no presente, e nos sonhos o espaço inexiste. O Zen questiona muito isso do Ali e Agora, a eternidade estaria no aqui e agora. Mas não sabemos o que é Eternidade.


20. A morte não tem importância, desde que haja alguma coisa do outro lado...

- Ela não tem importância porque ela é inevitável.


21. Nunca somos geniais quando morremos...

- Podemos ser muito geniais ao morrer. As últimas palavras de Kafka foram “Para o poço, para o fundo do poço filho de reis”. Rimbaud despediu-se da sua irmã, refe­rindo-se ao dia seguinte da sua morte, dizendo“Eu estarei embaixo da terra e tu caminharás ao sol”. Eu apenas diria “Que maçada”. Daqui há 50 anos serei conside­rada genial. Principalmente quando morre­mos podemos ser geniais.


2 poemas inéditos


Ai, que translúcido Te fazes

Que maravilha Teus ares

Ai, bem-querer de mim!

Tu

Nos Teus palanquins do alto

Olhando-me tão ferida

Tão mula velha

Tão carne de despedida

Tão ossos

Tão tudo que regozija

Tua garganta de brisa!

Vem. Engole-me inteira

No Teu exílio de esteiras!

II


No Teu leito de lírios

Lambe-me o pêlo

Agora reluzente

De remansos de zelo.

Devolve-me a cabeça

(Pois mula que sou

E deitada com o Pai

Isso talvez se faça ou aconteça)

Rodeia-a de rosas

Como os humanos fazem

À guisa de louros

Com os seus mais preclaros.

Barganha-me nas feiras

Em proveito Teu:

Mula que se fez musa

(Porque deitou com Deus)

Na grande noite escura

Do Teu riso.

2 poemas não-inéditos


(Alcoólicas / DO DESEJO)


I

a Jamil Snege


É crua a Vida. Alça de tripa e metal.

Nela despenco: pedra mórula ferida.

É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.

Como-a no livor da língua

Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me

No estreito-pouco

Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida

Tua unha plúmbea, meu casaco rosso.

E perambulamos de coturnos pela rua

Rubras, góticas, altas de corpo e copos.

A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.

E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima

Olho d’água, bebida. A vida é líquida.
(DO AMOR)


XXIII


Essa lua enlutada, esse desassossego

A convulsão de dentro, ilharga

Dentro da solidão, corpo morrendo

Tudo isso te devo. E eram tão vastas

As coisas planejadas: navios,

Muralhas de marfim, palavras largas

Consentimento sempre. E seria dezembro.

Um cavalo de jade sob a águas

Dupla transparência, fio suspenso

Todas essas coisas na ponta dos teus dedos

E tudo se desfez no pórtico do tempo

Em lívido silêncio. Umas manhãs de vidro

Vento, a alma esvaziada, um sol que não vejo


Também isso te devo.


poesia


Presságio - Revista dos Tribunais, 1950

Balada de Alzira – Edições Alarico, 1951

Balada do festival – Jornal de Letras, 1955

Roteiro do silêncio – Anhambi, 1959

Trovas de muito amor para um amado senhor-

Anhambi, 1959; Massao Ohno, 1961

Ode fragmentária - Anhambi, 1961

Sete cantos do poeta para o anjo - Masso Ohno, 1962

Poesia (1959-1967) – Editora Sal, 1967

Júbilo, memória, noviciato da paixão - Massao Ohno, 1974

Poesia (1959-1979) – Quíron, 1980

Da morte. Odes mínimas – Massao Ohno,

Roswitha Kempf, 1980

Cantares de perda e predileção – Massao Ohno/

Lídia Pires e Albuquerque Editores, 1980

Poemas malditos, gozosos e devotos - Massao Ohno/

Ismael Guarneli Editores, 1984

Sobre a tua grande face - Massao Ohno, 1986

Amavisse- Massao Ohno, 1989

Alcoólicas – Maison de vins, 1990

Bufólicas – Massao Ohno, 1992

Do desejo – Pontes, 1992

Cantares do sem nome e de partidas - Massao Ohno, 1995

Na bibliografia de Hilda, acrescentar

Do Amor --- SP: Edith Arnhold- Massao Ohno Editor, 1999


teatro (inédito)


A possessa, 1967

O rato no muro, 1967

O visitante, 1968

Auto da Barca de Camiri

Aves da noite, 1968

O verdugo, 1969

A morte do patriarca, 1969


prosa


Fluxo-floema – Perspectiva, 1970

Qadós – Edart, 1973

Ficções – Quíron, 1977

Tu não te moves de ti – Cultura, 1980

A obscena senhora D – Massao Ohno, 1982

Com meus olhos de cão e outras novelas –

Brasiliense, 1986

O caderno rosa de Lory Lambi – Massao Ohno, 1990

Contos d’escárnio/Textos grotescos – Siciliano, 1990

Cartas de um sedutor – Paulicéia, 1991

Rútilo nada – Pontes, 1993

Estar sendo – Ter sido – Nankin, 1997

Cascos e carícias – Nankin, 1999


Entrevista publicada em 25 de dezembro de 1999, caderno “Prosa & Verso”; Jornal “O Globo”

Pedro Maciel é autor do romance “A Hora dos Náufragos”, Ed. Bertrand Brasil. E-mail: pedro_maciel@uol.com.br

Ana Cristina César

I
olho muito tempo o corpo de um poema
até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado dentre os dentes
um filete de sangue
nas gengivas



II      
Tenho uma folha branca
e limpa à minha espera:
mudo convite

tenho uma cama branca
e limpa à minha espera:
mudo convite

tenho uma vida branca
e limpa à minha espera:


Psicografia
Também eu saio à revelia
e procuro uma síntese nas demoras
cato obsessões com fria têmpera e digo
do coração: não soube e digo
da palavra: não digo (não posso ainda acreditar
na vida) e demito o verso como quem acena
e vivo como quem despede a raiva de ter visto

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Manuel Bandeira

Brisa

Vamos viver no Nordeste, Anarina.
Deixarei aqui meus amigos, meus livros, minhas riquezas, minha vergonha.
Deixarás aqui tua filha, tua avó, teu marido, teu amante.
Aqui faz muito calor.
No Nordeste faz calor também.
Mas lá tem brisa:
Vamos viver de brisa, Anarina.

Desencanto

Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca,
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

- Eu faço versos como quem morre.

Poema do Beco

Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?
- O que eu vejo é o beco.

Andorinha

Andorinha lá fora está dizendo:
- "Passei o dia à toa, à toa!"

Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais triste!
Passei a vida à toa, à toa...

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

William Shakespeare

Sonetos*

18.
- Comparar-te com um dia de verão?
Tens mais doçura e mais amenidade:
Flores de maio, ao vento rude vão
Como o estio se vai com brevidade:
O sol às vezes em calor se exalta
Ou tem a essência de ouro sem firmeza
E o que é formoso, à formosura falta,
Por sorte ou por mudar-se a natureza.
Mas teu verão eterno brilha a ver-te
Guardando o belo que em ti permanece.
Nem a morte rirá de ensombrecer-te,
Quando em verso imortal, no tempo cresces.
   Enquanto o homem respire, o olhar aqueça,
   Viva o meu verso e vida te ofereça.

64.
Vendo que a mão do Tempo desfigura
a tão rica altivez dos dias idos,
Que jaz a torre em terra, das alturas
Caída, ou o bronze eterno destruído;
Vendo que o mar faminto um dia ganha
Parte ao reino da praia a quem vem dar
E no outro, o solo a àgua lhe arrebanha
E ganha à perda e perde por ganhar;
Vendo que é tão comum mudar-se o estado,
Que o próprio estado lembra uma ruína,
Eis que a ruína me tem ensinado
Que o tempo leva o amor e o amor termina.
   Pensá-lo é dor mortal - pois só nos cabe
   O Bem que nós tememos logo acabe.

66.
Cansado disso tudo, a morte exijo;
De ver o mérito nascido pobre
E a nulidade posta em regozijo
E a fé mais pura que a traição recobre
E a honra de ouro em vergonha aviltada
E a virtude de virgens posta à venda
E a perfeição, num erro, desgraçada
E a força ao coxo ceder na contenda
E a autoridade amordaçando a arte
E o tolo, doutoral, deitar saberes
E a verdade escarnida ao dar-se em partes
E o Bem cativo aos pés de vis poderes:
   Cansado disso tudo eu me finasse
   Se ao meu amor sozinho não deixasse.

(* tradução de Jorge Wanderley)

Vinícius de Moraes

A medida do abismo

Não é o grito
A medida do abismo?
Por isso eu grito
Sempre que cismo
Sobre tua vida
Tão louca e errada...
- Que grito inútil!
- Que imenso nada!

O mais-que-perfeito

Ah, quem me dera ir-me
   Contigo agora
Para um horizonte firme
   (Comum, embora...)
Ah, quem me dera ir-me!

Ah, quem me dera amar-te
   Sem mais ciúmes
De alguém em algum lugar
   Que não presumes
Ah, quem me dera amar-te!

Ah, quem me dera ver-te
   Sempre a meu lado
Sem precisar dizer-te
   Jamais: cuidado...
Ah, quem me dera ver-te

Ah, quem me dera ter-te
   Como um lugar
Plantado num chão verde
   Para eu morar-te
Morar-te até morrer-te...

Canção para a amiga dormindo

Dorme, amiga, dorme
Teu sono de rosa
Uma paz imensa
Desceu nesta hora.
Cerra bem as pétalas
Do teu corpo imóvel
E pede ao silêncio
Que não vá embora.

Dorme, amiga, o sono
Teu de menininha
Minha vida é a tua
Tua morte é a minha.
Dorme e me procura
Na ausente paisagem...
Nela a minha imagem
Restará mais pura.

Dorme, minha amada
Teu sono de estrela
Nossa morte, nada
Poderá detê-la.
Mas dorme, que assim
Dormirás um dia
Na minha poesia
De um sono sem fim...

Walt Whitman

Canto a mim mesmo (excertos)*

18. Com música forte eu venho,
com minhas cornetas e meus tambores;
não toco hinos
só para os vencedores consagrados,
toco hinos também
para as pessoas batidas e assassinadas.

Vocês já ouviram dizer
que ganhar o dia é bom?
Pois eu digo que é bom também perder:
batalhas são perdidas
com o mesmo espírito
com que são ganhas.

Vivas àqueles que levaram a pior!
E àqueles cujos navios de guerra
afundaram no mar!
E a todos os generais
das estratégias perdidas,
que foram todos heróis!
E ao sem-número dos heróis desconhecidos,
equivalentes aos heróis maiores
que se conhecem!

20. Em toda pessoa eu vejo a mim mesmo,
nem mais nem menos um grão de mostarda,
e o bem ou o mal que falo de mim mesmo
falo dela também.

Sei que sou sólido e são,
para mim num permanente fluir
convergem os objetos do universo;
todos estão escritos para mim
e eu tenho de saber o que significa
o que está escrito.

Sei que sou imortal,
sei que esta minha órbita não pode
ser traçada
pelo compasso de um carpinteiro qualquer.
Sei que não passarei
assim que nem verruga de criança
que à noite se remove
com um alfinete flambado.

Existe um mundo
que toma conhecimento,
e este é o maior para mim:
o mundo de mim mesmo.
Se a mim mesmo eu chegar hoje,
daqui a dez mil ou dez milhões de anos,
posso alcançá-lo agora bem disposto
ou posso bem disposto esperar mais.

O lugar de meus pés
está lavrado e ajustado em granito:
rio-me do que dizem ser dissolução
- conheço bem a amplitude do tempo.

(tradução de Geir Campos)

João Guimarães Rosa

Elegia

Teu sorriso se abriu como uma anêmona
entre as covinhas do rosto infantil.
Estavas de pijama verde,
nas almofadas verdes,
os pezinhos nus, as pernas cruzadas,
pequenina
como um ídolo de jade
que teve por modelo uma princesa anamita.
Tuas mãos sorriam,
teus olhos sorriam,
o liso de teus cabelos pretos sorria,
e mesmo me sorriste,
e foi a única vez...

Não pude calçar, com beijos, os teus pezinhos,
e não pudeste caminhar para mim...
Mas é bem assim que os meus sonhos te possuem.

Alaranjado

No campo seco, a crepitar em brasas,
dançam as últimas chamas da queimada,
tão quente, que o sol pende no ocaso,
bicado
pelos sanhaços das nuvens,
para cair, redondo e pesado,
como uma tangerina temporâ madura...

Amanhecer

Floresce, na orilha da campina,
esguio ipê
de copa metálica e esterlina.

Das mil corolas,
saem vespas, abelhas e besouros,
polvilhados de ouro,
a enxamear no leste, onde vão pousando
nas piritas que piscam nas ladeiras,
e no riso das acácias amarelas.

Dos charcos frios
sobem a caçá-los redes longas,
lentas e rasgadas de neblina.
Nuvens deslizam, despetaladas,
e altas, altas,
garças brancas planam.

Dançam fadas alvas,
cantam almas aladas,
na taça ampla,
na prata lavada,
na jarra clara da manhã...