Peliano costuma brincar que a poes-ia e foram os poetas que a trouxeram de volta! Uma de suas invenções mais ricas é conseguir por em palavras lirismos maravilhosos, aqueles que percebemos de repente e temos a impressão que não vamos conseguir exprimi-los. Exemplos: de Manoel de Barros -"Deixamos Bernardo de manhã em sua sepultura. De tarde o deserto já estava em nós"; de Ernesto Sabato - "Sólo quienes sean capaces de encarnar la utopía serán aptos para ... recuperar cuanto de humanidad hayamos perdido"; de Thiago de Mello - "Faz escuro mas eu canto"; de Helen Keller - "Nunca se deve engatinhar quando o impulso é voar"; de Millôr Fernandes - "Sim, do mundo nada se leva. Mas é formidável ter uma porção de coisas a que dizer adeus". É como teria exclamado Michelangelo que não fora ele quem esculpiu Davi, pois este já estava pronto dentro da pedra, Michelangelo apenas tirara-o de lá. Então, para Peliano, o lirismo é quando nos abraça o mundo fora de nós, cochicha seu mistério em nossos ouvidos e o pegamos com as mãos da poesia em seus muitos dedos de expressão.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Ariano Suassuna

O Mundo do Sertão


Diante de mim, as malhas amarelas
do mundo, Onça castanha e destemida.
No campo rubro, a Asma azul da vida
à cruz do Azul, o Mal se desmantela.

Mas a Prata sem sol destas moedas
perturba a Cruz e as Rosas mal perdidas;
e a Marca negra esquerda inesquecida
corta a Prata das folhas e fivelas.

E enquanto o Fogo clama a Pedra rija,
que até o fim, serei desnorteado,
que até no Pardo o cego desespera,

o Cavalo castanho, na cornija,
tenha alçar-se, nas asas, ao Sagrado,
ladrando entre as Esfinges e a Pantera.

A mulher e o reino
Oh! Romã do pomar, relva esmeralda
Olhos de ouro e azul, minha alazã
Ária em forma de sol, fruto de prata
Meu chão, meu anel , cor do amanhã

Oh! Meu sangue, meu sono e dor, coragem
Meu candeeiro aceso da miragem
Meu mito e meu poder, minha mulher

Dizem que tudo passa e o tempo duro
tudo esfarela
O sangue há de morrer

Mas quando a luz me diz que esse ouro puro se acaba pôr finar e corromper]
Meu sangue ferve contra a vã razão
E há de pulsar o amor na escuridão

O Amor e a Morte
Sobre essa estrada ilumineira e parda
dorme o Lajedo ao sol, como uma Cobra.
Tua nudez na minha se desdobra
— ó Corça branca, ó ruiva Leoparda.

O Anjo sopra a corneta e se retarda:
seu Cinzel corta a pedra e o Porco sobra.
Ao toque do Divino, o bronze dobra,
enquanto assolo os peitos da javarda.

Vê: um dia, a bigorna desses Paços
cortará, no martelo de seus aços,
e o sangue, hão de abrasá-lo os inimigos.

E a Morte, em trajos pretos e amarelos,
brandirá, contra nós, doidos Cutelos
e as Asas rubras dos Dragões antigos.

Lápide
Quando eu morrer, não soltem meu Cavalo
nas pedras do meu Pasto incendiado:
fustiguem-lhe seu Dorso alardeado,
com a Espora de ouro, até matá-lo.

Um dos meus filhos deve cavalgá-lo
numa Sela de couro esverdeado,
que arraste pelo Chão pedroso e pardo
chapas de Cobre, sinos e badalos.

Assim, com o Raio e o cobre percutido,
tropel de cascos, sangue do Castanho,
talvez se finja o som de Ouro fundido

que, em vão – Sangue insensato e vagabundo —
tentei forjar, no meu Cantar estranho,
à tez da minha Fera e ao Sol do Mundo!

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Meus despoemas

Homófono é o caso de dois ou mais vocábulos que, diversos no significado e grafia, se pronunciam de modo idêntico. As composições apresentadas a seguir procuram seguir esta conceituação e podem ser consideradas homófonas na maioria das vezes. Foram todas concebidas com três significados e grafias diferentes em palavras únicas ou não. Lembram tercetos, apenas isto. Foram exercícios muitas vezes demorados para encontrar palavras e repetições nas condições definidas aqui com resultados significativos. Além de três, eles podem ser feitos com duas, quatro ou mais repetições e, à falta de nomenclatura conhecida, foram batizadas de “homofonetos”. A ideia foi a de aproveitar a riqueza da língua e buscar palavras ou frases que, mantidas pronúncias semelhantes ou próximas, mostrassem significados e grafias diversas dentro de um conjunto compreensivo. Uma brincadeira de palavras com composições interessantes pela manutenção dos significados na leitura das três alternativas. Nunca me deparei com coisa parecida e repetida muitas vezes, sistematizada mesmo, como aqui. É possível que esta ideia já tenha sido explorada, a qual não considero, de forma alguma, original. Original talvez tenha sido colocá-la em vários exercícios, os homofonetos, todos juntos de uma só vez. Por não considerá-los poemas, batizei-lhes de despoemas. Seguem abaixo 6 deles de um total arquivado de 140.
Amsterdam
Ah! Míster Dan
Ame Ester, Dan
Amsterdam
Lado a lado
Lado, há lado?
Lado alado
Lado a lado

Apenas
Há penas
Ah! Penas
Apenas

Arredia
Arredia
À ré dia
Arre, dia!

Devidamente
Devida mente
Dê vida à mente
Devidamente


Em cruz ilha da
Encruzilhada
Em cruz ilhada

Pixinguinha

Carinhoso
Meu coração, não sei por quê
Bate feliz quando te vê
E os meus olhos ficam sorrindo
E pelas ruas vão te seguindo,
Mas mesmo assim foges de mim.
Ah se tu soubesses
Como sou tão carinhoso
E o muito, muito que te quero.
E como é sincero o meu amor,
Eu sei que tu não fugirias mais de mim.
Vem, vem, vem, vem,
Vem sentir o calor dos lábios meus
À procura dos teus.
Vem matar essa paixão
Que me devora o coração
E só assim então serei feliz,
Bem feliz.
Ah se tu soubesses como sou tão carinhoso
E o muito, muito que te quero
E como é sincero o meu amor
Eu sei que tu não fugirias mais de mim
Vem, vem, vem, vem
Vem sentir o calor dos lábios meus a procura dos teus
Vem matar essa paixão que me devora o coração
E só assim então serei feliz
Bem feliz

Rosa

Tu és, divina e graciosa
Estátua majestosa do amor
Por Deus esculturada
E formada com ardor
Da alma da mais linda flor
De mais ativo olor
Que na vida é preferida pelo beija-flor
Se Deus me fora tão clemente
Aqui nesse ambiente de luz
Formada numa tela deslumbrante e bela
Teu coração junto ao meu lanceado
Pregado e crucificado sobre a rósea cruz
Do arfante peito seu
Tu és a forma ideal
Estátua magistral oh alma perenal
Do meu primeiro amor, sublime amor
Tu és de Deus a soberana flor
Tu és de Deus a criação
Que em todo coração sepultas um amor
O riso, a fé, a dor
Em sândalos olentes cheios de sabor
Em vozes tão dolentes como um sonho em flor
És láctea estrela
És mãe da realeza
És tudo enfim que tem de belo
Em todo resplendor da santa natureza
Perdão, se ouso confessar-te
Eu hei de sempre amar-te
Oh flor meu peito não resiste
Oh meu Deus o quanto é triste
A incerteza de um amor
Que mais me faz penar em esperar
Em conduzir-te um dia
Ao pé do altar
Jurar, aos pés do onipotente
Em preces comoventes de dor
E receber a unção da tua gratidão
Depois de remir meus desejos
Em nuvens de beijos
Hei de envolver-te até meu padecer
De todo fenecer

Um a zero

Vai começar o futebol,pois é,
Com muita garra e emoção
São onze de cá, onze de lá
E o bate-bola do meu coração
É a bola, é a bola, é a bola,
É a bola e o gol!
Numa jogada emocionante
O nosso time venceu por um a zero
E a torcida vibrou
Vamos lembrar
A velha história desse esporte
Começou na Inglaterra
E foi parar no Japão
Habilidade, tiro cruzado,
Mete a cabeça, toca de lado,
Não vale é pegar com a mão
E o mundo inteiro
Se encantou com esta arte
Equilíbrio e malícia
Sorte e azar também
Deslocamento em profundidade
Pontaria
Na hora da conclusão
Meio-de-campo organizou
E vem a zaga rebater
Bate, rebate, é de primeira
Ninguém quer tomar um gol
É coisa séria, é brincadeira
Bola vai e volta
Vem brilhando no ar
E se o juiz apita errado
É que a coisa fica feia
Coitada da sua mãe
Mesmo sendo uma santa
Cai na boca do povão
Pode ter até bolacha
Pontapé, empurrão
Só depois de uma ducha fria
É que se aperta a mão
Ou não!
Vai começar...
Aos quarenta do segundo tempo
O jogo ainda é zero a zero
Todo time quer ser campeão
Tá lá um corpo estendido no chão
São os minutos finais
Vai ter desconto
Mas, numa jogada genial
Aproveitando o lateral
Um cruzamento que veio de trás
Foi quando alguém chegou
Meteu a bola na gaveta
E comemorou

Cartola

http://youtu.be/FL-fyaHV3Oc

O Mundo é Um Moinho
Ainda é cedo, amor
Mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora de partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar
Preste atenção, querida
Embora eu saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco a tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és
Ouça-me bem, amor
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho.
Vai reduzir as ilusões a pó
Preste atenção, querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavaste com os teus pés

As Rosas Não Falam
Bate outra vez
Com esperanças o meu coração
Pois já vai terminando o verão,
Enfim
Volto ao jardim
Com a certeza que devo chorar
Pois bem sei que não queres voltar
Para mim
Queixo-me às rosas,
Mas que bobagem
As rosas não falam
Simplesmente as rosas exalam
O perfume que roubam de ti, ai
Devias vir
Para ver os meus olhos tristonhos
E, quem sabe, sonhavas meus sonhos
Por fim

Preciso Me Encontrar
Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir prá não chorar
Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir prá não chorar...
Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer
Quero viver...
Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir prá não chorar
Se alguém por mim perguntar
Diga que eu só vou voltar
Depois que me encontrar...
Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer
Quero viver...
Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir prá não chorar...
Deixe-me ir preciso andar
Vou por aí a procurar
Sorrir prá não chorar
Deixe-me ir preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir prá não chorar...

O Sol Nascerá
A sorrir
Eu pretendo levar a vida
Pois chorando
Eu vi a mocidade
Perdida
Fim da tempestade
O sol nascerá
Fim desta saudade
Hei de ter outro alguém para amar
A sorrir
Eu pretendo levar a vida
Pois chorando
Eu vi a mocidade
Perdida

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Poema do dia

universos paralelos                             
                              josé carlos peliano

em meus braços um universo
com órbitas e arroubos luminosos sem bordas
do tamanho e fora dos limites do universo

você ultrapassa meus braços
com seu universo de dimensões imprevisíveis
onde me desoriento em nebulosas e galáxias
de seu corpo estrelado por imensidões e delícias

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Ronaldo Cagiano

Recompensa
A manhã e seus tropeços
a tarde e seus cansaços,
                              resíduos de um velho dia.

Na noite, os meus abraços
entre seus braços
                              de farta coreogragia.

Mosaico

Não me importa o que sou.
De nada vale a pena
deslumbrar-se
na vã tentativa de admirar
o que fez, o que foi, o que tem.
Orgulho-me, sim,
daquilo que não fui.

Só assim consigo estar mais leve
e ver além do sol,
porque das decepções que não sofri
e das frustações que não tive
a mim e aos demais poupei.

Entre tantas despedidas,
amizades desfeitas ou amores inconclusos,
ficou-me a estrada
e a estranha, iniludível sensação
de estar inacabado.

Contraponto

No parapeito
da velha ponte de Cataguases
esta água em que me dispo:
espelho do que fui.

Da palavra

(In) tento alinhavar a palavra
                       retesar da pena
                       à procura do verso.

Enquanto isso,
incursão no sulco que a pa-
                                            lavra submersa e insubmissa.

Seu reverso me ilude
                        poesia esquiva

Perverso, o verbo desencontra o percurso
e no recurso,
                                               fatigado,
cobiça o limiar do poema.

Aglaia Souza

L'arc-en-ciel

É isto que eu quero na minha vida:
este esplendor de arco-íris colorindo a tarde,
a chuva, o céu gris.

Mesmo quando se desfaz,
o arco de cores ainda pinta o remoto azul,
as nuvens cinzas, a se esfiaparem pela imensidão.

Eu volto o pensamento,
a vista para a penumbra do interior,
neste fim de tarde, neste fim de dia.

E sinto, permanente, imanente,
o arco no céu, as cores em mim.

Canção de Penélope

Nós, as lobas, nós, as onças,
... nossas crias junto ao peito,
nossos homens pelas mãos,
nossas caças preparamos.

Nós, as pombas, nós, ovelhas,
nossos ninhos e redis
perfumamos de alfazema
e deitamos num sorriso.

Nós, serpentes, nós, raposas,
nos covis e ribanceiras,
destilando o veneno
armadilhas engendramos.

Nós, as cabras, nós, coelhas,
nossos pelos enriçando
envolvemos nossos machos
num feitiço de amantes.

Nós, as fêmeas, nós, mulheres,
nós, rainhas, prostitutas,
nós, atletas, nós, artistas,
nos tecemos nesses fios.