O Mundo do Sertão
Diante de mim, as malhas amarelas
do mundo, Onça castanha e destemida.
No campo rubro, a Asma azul da vida
à cruz do Azul, o Mal se desmantela.
Mas a Prata sem sol destas moedas
perturba a Cruz e as Rosas mal perdidas;
e a Marca negra esquerda inesquecida
corta a Prata das folhas e fivelas.
E enquanto o Fogo clama a Pedra rija,
que até o fim, serei desnorteado,
que até no Pardo o cego desespera,
o Cavalo castanho, na cornija,
tenha alçar-se, nas asas, ao Sagrado,
ladrando entre as Esfinges e a Pantera.
A mulher e o reino
Oh! Romã do pomar, relva esmeralda
Olhos de ouro e azul, minha alazã
Ária em forma de sol, fruto de prata
Meu chão, meu anel , cor do amanhã
Oh! Meu sangue, meu sono e dor, coragem
Meu candeeiro aceso da miragem
Meu mito e meu poder, minha mulher
Dizem que tudo passa e o tempo duro
tudo esfarela
O sangue há de morrer
Mas quando a luz me diz que esse ouro puro se acaba pôr finar e corromper]
Meu sangue ferve contra a vã razão
E há de pulsar o amor na escuridão
O Amor e a Morte
Sobre essa estrada ilumineira e parda
dorme o Lajedo ao sol, como uma Cobra.
Tua nudez na minha se desdobra
— ó Corça branca, ó ruiva Leoparda.
O Anjo sopra a corneta e se retarda:
seu Cinzel corta a pedra e o Porco sobra.
Ao toque do Divino, o bronze dobra,
enquanto assolo os peitos da javarda.
Vê: um dia, a bigorna desses Paços
cortará, no martelo de seus aços,
e o sangue, hão de abrasá-lo os inimigos.
E a Morte, em trajos pretos e amarelos,
brandirá, contra nós, doidos Cutelos
e as Asas rubras dos Dragões antigos.
Lápide
Quando eu morrer, não soltem meu Cavalo
nas pedras do meu Pasto incendiado:
fustiguem-lhe seu Dorso alardeado,
com a Espora de ouro, até matá-lo.
Um dos meus filhos deve cavalgá-lo
numa Sela de couro esverdeado,
que arraste pelo Chão pedroso e pardo
chapas de Cobre, sinos e badalos.
Assim, com o Raio e o cobre percutido,
tropel de cascos, sangue do Castanho,
talvez se finja o som de Ouro fundido
que, em vão – Sangue insensato e vagabundo —
tentei forjar, no meu Cantar estranho,
à tez da minha Fera e ao Sol do Mundo!
Outros papos
domingo, 19 de fevereiro de 2012
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012
Meus despoemas
Homófono é o caso de dois ou mais vocábulos que, diversos no significado e grafia, se pronunciam de modo idêntico. As composições apresentadas a seguir procuram seguir esta conceituação e podem ser consideradas homófonas na maioria das vezes. Foram todas concebidas com três significados e grafias diferentes em palavras únicas ou não. Lembram tercetos, apenas isto. Foram exercícios muitas vezes demorados para encontrar palavras e repetições nas condições definidas aqui com resultados significativos. Além de três, eles podem ser feitos com duas, quatro ou mais repetições e, à falta de nomenclatura conhecida, foram batizadas de “homofonetos”. A ideia foi a de aproveitar a riqueza da língua e buscar palavras ou frases que, mantidas pronúncias semelhantes ou próximas, mostrassem significados e grafias diversas dentro de um conjunto compreensivo. Uma brincadeira de palavras com composições interessantes pela manutenção dos significados na leitura das três alternativas. Nunca me deparei com coisa parecida e repetida muitas vezes, sistematizada mesmo, como aqui. É possível que esta ideia já tenha sido explorada, a qual não considero, de forma alguma, original. Original talvez tenha sido colocá-la em vários exercícios, os homofonetos, todos juntos de uma só vez. Por não considerá-los poemas, batizei-lhes de despoemas. Seguem abaixo 6 deles de um total arquivado de 140.
Amsterdam
Ah! Míster Dan
Ame Ester, Dan
Amsterdam
Ah! Míster Dan
Ame Ester, Dan
Amsterdam
Lado a lado
Lado, há lado?
Lado alado
Lado a lado
Apenas
Há penas
Ah! Penas
Apenas
Arredia
Arredia
À ré dia
Arre, dia!
Devidamente
Devida mente
Dê vida à mente
Devidamente
Em cruz ilha da
Encruzilhada
Em cruz ilhada
Lado, há lado?
Lado alado
Lado a lado
Apenas
Há penas
Ah! Penas
Apenas
Arredia
Arredia
À ré dia
Arre, dia!
Devidamente
Devida mente
Dê vida à mente
Devidamente
Em cruz ilha da
Encruzilhada
Em cruz ilhada
Pixinguinha
Carinhoso
Meu coração, não sei por quê
Bate feliz quando te vê
E os meus olhos ficam sorrindo
E pelas ruas vão te seguindo,
Mas mesmo assim foges de mim.
Ah se tu soubesses
Como sou tão carinhoso
E o muito, muito que te quero.
E como é sincero o meu amor,
Eu sei que tu não fugirias mais de mim.
Vem, vem, vem, vem,
Vem sentir o calor dos lábios meus
À procura dos teus.
Vem matar essa paixão
Que me devora o coração
E só assim então serei feliz,
Bem feliz.
Ah se tu soubesses como sou tão carinhoso
E o muito, muito que te quero
E como é sincero o meu amor
Eu sei que tu não fugirias mais de mim
Vem, vem, vem, vem
Vem sentir o calor dos lábios meus a procura dos teus
Vem matar essa paixão que me devora o coração
E só assim então serei feliz
Bem feliz
Rosa
Um a zero
Bate feliz quando te vê
E os meus olhos ficam sorrindo
E pelas ruas vão te seguindo,
Mas mesmo assim foges de mim.
Ah se tu soubesses
Como sou tão carinhoso
E o muito, muito que te quero.
E como é sincero o meu amor,
Eu sei que tu não fugirias mais de mim.
Vem, vem, vem, vem,
Vem sentir o calor dos lábios meus
À procura dos teus.
Vem matar essa paixão
Que me devora o coração
E só assim então serei feliz,
Bem feliz.
Ah se tu soubesses como sou tão carinhoso
E o muito, muito que te quero
E como é sincero o meu amor
Eu sei que tu não fugirias mais de mim
Vem, vem, vem, vem
Vem sentir o calor dos lábios meus a procura dos teus
Vem matar essa paixão que me devora o coração
E só assim então serei feliz
Bem feliz
Rosa
Tu és, divina e graciosa
Estátua majestosa do amor
Por Deus esculturada
E formada com ardor
Da alma da mais linda flor
De mais ativo olor
Que na vida é preferida pelo beija-flor
Se Deus me fora tão clemente
Aqui nesse ambiente de luz
Formada numa tela deslumbrante e bela
Teu coração junto ao meu lanceado
Pregado e crucificado sobre a rósea cruz
Do arfante peito seu
Tu és a forma ideal
Estátua magistral oh alma perenal
Do meu primeiro amor, sublime amor
Tu és de Deus a soberana flor
Tu és de Deus a criação
Que em todo coração sepultas um amor
O riso, a fé, a dor
Em sândalos olentes cheios de sabor
Em vozes tão dolentes como um sonho em flor
És láctea estrela
És mãe da realeza
És tudo enfim que tem de belo
Em todo resplendor da santa natureza
Perdão, se ouso confessar-te
Eu hei de sempre amar-te
Oh flor meu peito não resiste
Oh meu Deus o quanto é triste
A incerteza de um amor
Que mais me faz penar em esperar
Em conduzir-te um dia
Ao pé do altar
Jurar, aos pés do onipotente
Em preces comoventes de dor
E receber a unção da tua gratidão
Depois de remir meus desejos
Em nuvens de beijos
Hei de envolver-te até meu padecer
De todo fenecer
Estátua majestosa do amor
Por Deus esculturada
E formada com ardor
Da alma da mais linda flor
De mais ativo olor
Que na vida é preferida pelo beija-flor
Se Deus me fora tão clemente
Aqui nesse ambiente de luz
Formada numa tela deslumbrante e bela
Teu coração junto ao meu lanceado
Pregado e crucificado sobre a rósea cruz
Do arfante peito seu
Tu és a forma ideal
Estátua magistral oh alma perenal
Do meu primeiro amor, sublime amor
Tu és de Deus a soberana flor
Tu és de Deus a criação
Que em todo coração sepultas um amor
O riso, a fé, a dor
Em sândalos olentes cheios de sabor
Em vozes tão dolentes como um sonho em flor
És láctea estrela
És mãe da realeza
És tudo enfim que tem de belo
Em todo resplendor da santa natureza
Perdão, se ouso confessar-te
Eu hei de sempre amar-te
Oh flor meu peito não resiste
Oh meu Deus o quanto é triste
A incerteza de um amor
Que mais me faz penar em esperar
Em conduzir-te um dia
Ao pé do altar
Jurar, aos pés do onipotente
Em preces comoventes de dor
E receber a unção da tua gratidão
Depois de remir meus desejos
Em nuvens de beijos
Hei de envolver-te até meu padecer
De todo fenecer
Um a zero
Vai começar o futebol,pois é,
Com muita garra e emoção
São onze de cá, onze de lá
E o bate-bola do meu coração
É a bola, é a bola, é a bola,
É a bola e o gol!
Numa jogada emocionante
O nosso time venceu por um a zero
E a torcida vibrou
Vamos lembrar
A velha história desse esporte
Começou na Inglaterra
E foi parar no Japão
Habilidade, tiro cruzado,
Mete a cabeça, toca de lado,
Não vale é pegar com a mão
E o mundo inteiro
Se encantou com esta arte
Equilíbrio e malícia
Sorte e azar também
Deslocamento em profundidade
Pontaria
Na hora da conclusão
Meio-de-campo organizou
E vem a zaga rebater
Bate, rebate, é de primeira
Ninguém quer tomar um gol
É coisa séria, é brincadeira
Bola vai e volta
Vem brilhando no ar
E se o juiz apita errado
É que a coisa fica feia
Coitada da sua mãe
Mesmo sendo uma santa
Cai na boca do povão
Pode ter até bolacha
Pontapé, empurrão
Só depois de uma ducha fria
É que se aperta a mão
Ou não!
Vai começar...
Aos quarenta do segundo tempo
O jogo ainda é zero a zero
Todo time quer ser campeão
Tá lá um corpo estendido no chão
São os minutos finais
Vai ter desconto
Mas, numa jogada genial
Aproveitando o lateral
Um cruzamento que veio de trás
Foi quando alguém chegou
Meteu a bola na gaveta
E comemorou
Com muita garra e emoção
São onze de cá, onze de lá
E o bate-bola do meu coração
É a bola, é a bola, é a bola,
É a bola e o gol!
Numa jogada emocionante
O nosso time venceu por um a zero
E a torcida vibrou
Vamos lembrar
A velha história desse esporte
Começou na Inglaterra
E foi parar no Japão
Habilidade, tiro cruzado,
Mete a cabeça, toca de lado,
Não vale é pegar com a mão
E o mundo inteiro
Se encantou com esta arte
Equilíbrio e malícia
Sorte e azar também
Deslocamento em profundidade
Pontaria
Na hora da conclusão
Meio-de-campo organizou
E vem a zaga rebater
Bate, rebate, é de primeira
Ninguém quer tomar um gol
É coisa séria, é brincadeira
Bola vai e volta
Vem brilhando no ar
E se o juiz apita errado
É que a coisa fica feia
Coitada da sua mãe
Mesmo sendo uma santa
Cai na boca do povão
Pode ter até bolacha
Pontapé, empurrão
Só depois de uma ducha fria
É que se aperta a mão
Ou não!
Vai começar...
Aos quarenta do segundo tempo
O jogo ainda é zero a zero
Todo time quer ser campeão
Tá lá um corpo estendido no chão
São os minutos finais
Vai ter desconto
Mas, numa jogada genial
Aproveitando o lateral
Um cruzamento que veio de trás
Foi quando alguém chegou
Meteu a bola na gaveta
E comemorou
Cartola
Ainda é cedo, amor
Mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora de partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar
Preste atenção, querida
Embora eu saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco a tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és
Ouça-me bem, amor
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho.
Vai reduzir as ilusões a pó
Preste atenção, querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavaste com os teus pés
Mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora de partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar
Preste atenção, querida
Embora eu saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco a tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és
Ouça-me bem, amor
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho.
Vai reduzir as ilusões a pó
Preste atenção, querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavaste com os teus pés
As Rosas Não Falam
Bate outra vez
Com esperanças o meu coração
Pois já vai terminando o verão,
Enfim
Volto ao jardim
Com a certeza que devo chorar
Pois bem sei que não queres voltar
Para mim
Queixo-me às rosas,
Mas que bobagem
As rosas não falam
Simplesmente as rosas exalam
O perfume que roubam de ti, ai
Devias vir
Para ver os meus olhos tristonhos
E, quem sabe, sonhavas meus sonhos
Por fim
Com esperanças o meu coração
Pois já vai terminando o verão,
Enfim
Volto ao jardim
Com a certeza que devo chorar
Pois bem sei que não queres voltar
Para mim
Queixo-me às rosas,
Mas que bobagem
As rosas não falam
Simplesmente as rosas exalam
O perfume que roubam de ti, ai
Devias vir
Para ver os meus olhos tristonhos
E, quem sabe, sonhavas meus sonhos
Por fim
Preciso Me Encontrar
Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir prá não chorar
Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir prá não chorar...
Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer
Quero viver...
Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir prá não chorar
Se alguém por mim perguntar
Diga que eu só vou voltar
Depois que me encontrar...
Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer
Quero viver...
Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir prá não chorar...
Deixe-me ir preciso andar
Vou por aí a procurar
Sorrir prá não chorar
Deixe-me ir preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir prá não chorar...
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir prá não chorar
Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir prá não chorar...
Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer
Quero viver...
Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir prá não chorar
Se alguém por mim perguntar
Diga que eu só vou voltar
Depois que me encontrar...
Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer
Quero viver...
Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir prá não chorar...
Deixe-me ir preciso andar
Vou por aí a procurar
Sorrir prá não chorar
Deixe-me ir preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir prá não chorar...
O Sol Nascerá
A sorrir
Eu pretendo levar a vida
Pois chorando
Eu vi a mocidade
Perdida
Fim da tempestade
O sol nascerá
Fim desta saudade
Hei de ter outro alguém para amar
A sorrir
Eu pretendo levar a vida
Pois chorando
Eu vi a mocidade
Perdida
Eu pretendo levar a vida
Pois chorando
Eu vi a mocidade
Perdida
Fim da tempestade
O sol nascerá
Fim desta saudade
Hei de ter outro alguém para amar
A sorrir
Eu pretendo levar a vida
Pois chorando
Eu vi a mocidade
Perdida
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
Poema do dia
universos paralelos
josé carlos peliano
do tamanho e fora dos limites do universo
onde me desoriento em nebulosas e galáxias
de seu corpo estrelado por imensidões e delícias
josé carlos peliano
em meus braços um universo
com órbitas e arroubos luminosos sem bordasdo tamanho e fora dos limites do universo
você ultrapassa meus braços
com seu universo de dimensões imprevisíveisonde me desoriento em nebulosas e galáxias
de seu corpo estrelado por imensidões e delícias
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
Ronaldo Cagiano
Recompensa
A manhã e seus tropeços
a tarde e seus cansaços,
resíduos de um velho dia.
Na noite, os meus abraços
entre seus braços
de farta coreogragia.
Mosaico
Não me importa o que sou.
De nada vale a pena
deslumbrar-se
na vã tentativa de admirar
o que fez, o que foi, o que tem.
Orgulho-me, sim,
daquilo que não fui.
Só assim consigo estar mais leve
e ver além do sol,
porque das decepções que não sofri
e das frustações que não tive
a mim e aos demais poupei.
Entre tantas despedidas,
amizades desfeitas ou amores inconclusos,
ficou-me a estrada
e a estranha, iniludível sensação
de estar inacabado.
Contraponto
No parapeito
da velha ponte de Cataguases
esta água em que me dispo:
espelho do que fui.
Da palavra
(In) tento alinhavar a palavra
retesar da pena
à procura do verso.
Enquanto isso,
incursão no sulco que a pa-
lavra submersa e insubmissa.
Seu reverso me ilude
poesia esquiva
Perverso, o verbo desencontra o percurso
e no recurso,
fatigado,
cobiça o limiar do poema.
A manhã e seus tropeços
a tarde e seus cansaços,
resíduos de um velho dia.
Na noite, os meus abraços
entre seus braços
de farta coreogragia.
Mosaico
Não me importa o que sou.
De nada vale a pena
deslumbrar-se
na vã tentativa de admirar
o que fez, o que foi, o que tem.
Orgulho-me, sim,
daquilo que não fui.
Só assim consigo estar mais leve
e ver além do sol,
porque das decepções que não sofri
e das frustações que não tive
a mim e aos demais poupei.
Entre tantas despedidas,
amizades desfeitas ou amores inconclusos,
ficou-me a estrada
e a estranha, iniludível sensação
de estar inacabado.
Contraponto
No parapeito
da velha ponte de Cataguases
esta água em que me dispo:
espelho do que fui.
Da palavra
(In) tento alinhavar a palavra
retesar da pena
à procura do verso.
Enquanto isso,
incursão no sulco que a pa-
lavra submersa e insubmissa.
Seu reverso me ilude
poesia esquiva
Perverso, o verbo desencontra o percurso
e no recurso,
fatigado,
cobiça o limiar do poema.
Aglaia Souza
L'arc-en-ciel
É isto que eu quero na minha vida:
este esplendor de arco-íris colorindo a tarde,
a chuva, o céu gris.
Mesmo quando se desfaz,
o arco de cores ainda pinta o remoto azul,
as nuvens cinzas, a se esfiaparem pela imensidão.
Eu volto o pensamento,
a vista para a penumbra do interior,
neste fim de tarde, neste fim de dia.
E sinto, permanente, imanente,
o arco no céu, as cores em mim.
Canção de Penélope
Nós, as lobas, nós, as onças,
... nossas crias junto ao peito,
nossos homens pelas mãos,
nossas caças preparamos.
Nós, as pombas, nós, ovelhas,
nossos ninhos e redis
perfumamos de alfazema
e deitamos num sorriso.
Nós, serpentes, nós, raposas,
nos covis e ribanceiras,
destilando o veneno
armadilhas engendramos.
Nós, as cabras, nós, coelhas,
nossos pelos enriçando
envolvemos nossos machos
num feitiço de amantes.
Nós, as fêmeas, nós, mulheres,
nós, rainhas, prostitutas,
nós, atletas, nós, artistas,
nos tecemos nesses fios.
É isto que eu quero na minha vida:
este esplendor de arco-íris colorindo a tarde,
a chuva, o céu gris.
Mesmo quando se desfaz,
o arco de cores ainda pinta o remoto azul,
as nuvens cinzas, a se esfiaparem pela imensidão.
Eu volto o pensamento,
a vista para a penumbra do interior,
neste fim de tarde, neste fim de dia.
E sinto, permanente, imanente,
o arco no céu, as cores em mim.
Canção de Penélope
Nós, as lobas, nós, as onças,
... nossas crias junto ao peito,
nossos homens pelas mãos,
nossas caças preparamos.
Nós, as pombas, nós, ovelhas,
nossos ninhos e redis
perfumamos de alfazema
e deitamos num sorriso.
Nós, serpentes, nós, raposas,
nos covis e ribanceiras,
destilando o veneno
armadilhas engendramos.
Nós, as cabras, nós, coelhas,
nossos pelos enriçando
envolvemos nossos machos
num feitiço de amantes.
Nós, as fêmeas, nós, mulheres,
nós, rainhas, prostitutas,
nós, atletas, nós, artistas,
nos tecemos nesses fios.
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