Qualquer Coisa
Vasa pela fresta
do vaso quebrado
o verbo,
não carece mais
que um insípido objeto
para ser
verso
transbordante
Aceito
Se estranha a teia
assimilo o asco
do desconhecido,
aranha enorme,
uma batalha disforme
entre verbo
e a garra do instinto
Nua
A máscara está deposta
desconhece-me
eu sei sobre seu espanto
certamente
não será a última,
já tendo me despido
esqueço-a,
máscaras morrem
quando postas sobre a mesa.
Verso bailarino
Poemas que dançam
são etéreos
preferem
não ser impressos
valsam
sugerindo.
Outros papos
quinta-feira, 28 de junho de 2012
segunda-feira, 25 de junho de 2012
Antonio Cícero
Desejo
Só o desejo não passa
e só deseja o que passa
e passo meu tempo inteiro
a enfrentar um só problema:
ao menos no meu poema
agarrar o passageiro.
Longe
A chuva forte, o resfriado
real ou fingido, e eis-me livre
da escola e solto no meu quarto,
nos lençóis, nos mares de Chipre
ou no salão de Ana Pavlovna
ou no de Alcínoo, nas cavernas
de Barabar ou sob a abóbada
de Xanadu; perplexo em Tebas
e pelas veredas ambíguas
do sertão do corpo da língua,
cada vez mais longe de escolas
e de peladas e de bolas
e de promessas de futuros,
é mesmo errático meu rumo.
Logrador
Você habita o próprio centro
De um coração que já foi meu
Por dentro torço pra que dentro
em pouco lá só more eu.
Livre de todos os negócios
e vícios que advêm de amar
lá seja o centro de alguns ócios
que escolherei por cultivar.
E pra que os sócios vis do amor,
rancor, dor, ódio, solidão
não mais consumam meu vigor,
amado e amor banir-se-ão
do centro ruma a um logrador
subúrbio desse coração.
Dilema
O que muito me confunde
é que no fundo de mim estou eu
e no fundo de mim estou eu.
No fundo
sei que não sou sem fim
E sou feito de um mundo imenso
Imerso num universo
que não é feito de mim
Mas mesmo isso é controverso
Se nos versos de um poema
Perverso sai o reverso.
Disperso num tal
dilema
O certo é reconhecer:
no fundo de mim
sou sem fundo.
Só o desejo não passa
e só deseja o que passa
e passo meu tempo inteiro
a enfrentar um só problema:
ao menos no meu poema
agarrar o passageiro.
Longe
A chuva forte, o resfriado
real ou fingido, e eis-me livre
da escola e solto no meu quarto,
nos lençóis, nos mares de Chipre
ou no salão de Ana Pavlovna
ou no de Alcínoo, nas cavernas
de Barabar ou sob a abóbada
de Xanadu; perplexo em Tebas
e pelas veredas ambíguas
do sertão do corpo da língua,
cada vez mais longe de escolas
e de peladas e de bolas
e de promessas de futuros,
é mesmo errático meu rumo.
Logrador
Você habita o próprio centro
De um coração que já foi meu
Por dentro torço pra que dentro
em pouco lá só more eu.
Livre de todos os negócios
e vícios que advêm de amar
lá seja o centro de alguns ócios
que escolherei por cultivar.
E pra que os sócios vis do amor,
rancor, dor, ódio, solidão
não mais consumam meu vigor,
amado e amor banir-se-ão
do centro ruma a um logrador
subúrbio desse coração.
Dilema
O que muito me confunde
é que no fundo de mim estou eu
e no fundo de mim estou eu.
No fundo
sei que não sou sem fim
E sou feito de um mundo imenso
Imerso num universo
que não é feito de mim
Mas mesmo isso é controverso
Se nos versos de um poema
Perverso sai o reverso.
Disperso num tal
dilema
O certo é reconhecer:
no fundo de mim
sou sem fundo.
Claudio Willer
Poemas para ler em voz alta
1
EROS
viajantes inertes
imersos no silêncio dessas horas
quando o tempo não é mais tempo
porém lassidão
e nossos corpos arquejantes construções
envoltas em nudez
testemunhada apenas pelos objetos da casa, os quadros na parede, os pesados móveis, os livros e suas lombadas, vasos de plantas, espelhos, e mais a negra silhueta dos prédios recortados contra a janela
rosto cego da cidade agora adormecida a observar-nos fixamente
eu bruxo, você sibila
que deuses cultuamos?
parados na pausa entre sobressaltos
que alquimia inventamos?
o peso que nos paralisa e adormece
não é cansaço
porém outra coisa
sensação do profundo
o obscuro sentir
do mundo que respira
pelos poros da escuridão
e nós, manietados pelo prazer, apenas conscientes
da presença dos objetos da casa, móveis, vasos de plantas, livros, almofadões
espalhados pelo chão, nossas roupas jogadas ao acaso, mais o negro recorte dos prédios
por trás da janela,
perfil da paisagem urbana, impassível testemunha
mal sabemos quem somos
lembramo-nos apenas dos nossos nomes
restam-nos o repouso e uma intuição
desperta para o morno mundo de nossos corpos
nunca, nunca havia sentido isso antes assim
2
quando o calor da noite de verão
e a chuva da noite de verão
se encontram
e são a mesma torrente de vida a escorrer por nossas artérias
então
reconhecemo-nos pelas carícias
um arco-íris pode sentar-se à cabeceira da cama
uma nuvem pode servir de cobertor
uma paisagem de sol nascente
em uma praia pontilhada de tendas de campistas
reflete-se no lago luminoso do seu ventre
a montanha e sua encosta recoberta de matagais
onde certa vez nos perdemos entre nascentes de rios
projetam sua sombra em suas coxas
planícies batidas pelo vento alísio
que atravessa o continente, o universo
são nossa imaginação febril
3
a colcha era verde
e a lâmpada azulada
costumavam ouvir músicas lentas e suaves
achavam que a estante repleta de livros tinha um ar solene
e gostavam disso
de qualquer coisa
que sugerisse um ambiente sobrenatural
eram rápidos, muito rápidos em seus jogos intelectuais
serviam-se em taças transbordantes, borbulhantes
e tudo era praticado com uma certa indiferença
com a naturalidade de há tanto tempo
termos nos habituado a estar juntos, a ficar nus, a beijar-nos na boca
deitar-nos sobre a colcha verde do sofá, à luz azul da lâmpada
ao lado da estante de livros compondo um clima de ritual
sugestão de coisa esotérica
decerto olhavam-se
e ficavam de voltar a encontrar-se outro dia
(as noite passavam depressa)
4
nossos hábitos delicados e perversos
nossas diversões meio delinquenciais, meio filosóficas
nossos prazeres íntimos e raros
as conversas irisadas de memória
gestos aos poucos entretecendo-se
na plenitude da nudez familiar
enquanto íamos nos transformando
nos pulsantes personagens crepusculares
de nossas narrativas
rodeados por um silêncio vivo, um tempo latejante
da noite percorrida
para não chegar a lugar algum
durante o dia
éramos simples mortais
1
EROS
viajantes inertes
imersos no silêncio dessas horas
quando o tempo não é mais tempo
porém lassidão
e nossos corpos arquejantes construções
envoltas em nudez
testemunhada apenas pelos objetos da casa, os quadros na parede, os pesados móveis, os livros e suas lombadas, vasos de plantas, espelhos, e mais a negra silhueta dos prédios recortados contra a janela
rosto cego da cidade agora adormecida a observar-nos fixamente
eu bruxo, você sibila
que deuses cultuamos?
parados na pausa entre sobressaltos
que alquimia inventamos?
o peso que nos paralisa e adormece
não é cansaço
porém outra coisa
sensação do profundo
o obscuro sentir
do mundo que respira
pelos poros da escuridão
e nós, manietados pelo prazer, apenas conscientes
da presença dos objetos da casa, móveis, vasos de plantas, livros, almofadões
espalhados pelo chão, nossas roupas jogadas ao acaso, mais o negro recorte dos prédios
por trás da janela,
perfil da paisagem urbana, impassível testemunha
mal sabemos quem somos
lembramo-nos apenas dos nossos nomes
restam-nos o repouso e uma intuição
desperta para o morno mundo de nossos corpos
nunca, nunca havia sentido isso antes assim
2
quando o calor da noite de verão
e a chuva da noite de verão
se encontram
e são a mesma torrente de vida a escorrer por nossas artérias
então
reconhecemo-nos pelas carícias
um arco-íris pode sentar-se à cabeceira da cama
uma nuvem pode servir de cobertor
uma paisagem de sol nascente
em uma praia pontilhada de tendas de campistas
reflete-se no lago luminoso do seu ventre
a montanha e sua encosta recoberta de matagais
onde certa vez nos perdemos entre nascentes de rios
projetam sua sombra em suas coxas
planícies batidas pelo vento alísio
que atravessa o continente, o universo
são nossa imaginação febril
3
a colcha era verde
e a lâmpada azulada
costumavam ouvir músicas lentas e suaves
achavam que a estante repleta de livros tinha um ar solene
e gostavam disso
de qualquer coisa
que sugerisse um ambiente sobrenatural
eram rápidos, muito rápidos em seus jogos intelectuais
serviam-se em taças transbordantes, borbulhantes
e tudo era praticado com uma certa indiferença
com a naturalidade de há tanto tempo
termos nos habituado a estar juntos, a ficar nus, a beijar-nos na boca
deitar-nos sobre a colcha verde do sofá, à luz azul da lâmpada
ao lado da estante de livros compondo um clima de ritual
sugestão de coisa esotérica
decerto olhavam-se
e ficavam de voltar a encontrar-se outro dia
(as noite passavam depressa)
4
nossos hábitos delicados e perversos
nossas diversões meio delinquenciais, meio filosóficas
nossos prazeres íntimos e raros
as conversas irisadas de memória
gestos aos poucos entretecendo-se
na plenitude da nudez familiar
enquanto íamos nos transformando
nos pulsantes personagens crepusculares
de nossas narrativas
rodeados por um silêncio vivo, um tempo latejante
da noite percorrida
para não chegar a lugar algum
durante o dia
éramos simples mortais
quarta-feira, 20 de junho de 2012
Lindolf Bell
Semanário
Na segunda-feira trabalho.
Afio enganos, anos e anos.
Na terça-feira trabalho.
Faço promessas de vagar
e de pressas.
Na sexta-feira trabalho.
Descubro um buraco na calça.
Outro buraco na alma.
Liquido a traça.
Na quarta-feira trabalho.
Empilho o tédio em caixas.
Penduro em branco nas ruas,
as faixas.
Na quinta-feira trabalho.
Esqueço um percevejo
no fundo da gaveta
do desejo.
Sábado trabalho.
No fonema, no poema.
No sonho entalado da verdade.
No dilema da felicidade.
No domingo
sento numa praça deserta.
E penso, covarde,
na próxima semana
escrita no livro da liberdade.
Timboema
Timboema
alusões ilusões
compõe-se o poema
de preferências secretas
fortuitos senões
frágil argila
amor e devaneio
se antes do tempo se vai
antes do tempo veio
em algum lugar da indiferença
em província de coisas breves
nada sei senão de ti
em última instância
Poema Matemático
Me somo
E fico um
Me multiplico
E permaneço um.
Me divido.
E continuo um.
Me diminuo.
E resto um.
Me escrevo
E sou nenhum.
finjo sonhos circunstâncias
me bifurco aqui
II
Ninguém ensina
o caminho
da mina.
Na oculta argamassa
vou à caça.
E mesmo da sobra
faço a obra.
O meu prato
é um ato
de alegria.
Também do triste
o fruto persiste.
E apesar do peso
o meu é meu
no coração aceso.
Meu sussurro
é um soco
no escuro.
E meu silêncio,
um grito fundo
nas carnes do mundo.
Na segunda-feira trabalho.
Afio enganos, anos e anos.
Na terça-feira trabalho.
Faço promessas de vagar
e de pressas.
Na sexta-feira trabalho.
Descubro um buraco na calça.
Outro buraco na alma.
Liquido a traça.
Na quarta-feira trabalho.
Empilho o tédio em caixas.
Penduro em branco nas ruas,
as faixas.
Na quinta-feira trabalho.
Esqueço um percevejo
no fundo da gaveta
do desejo.
Sábado trabalho.
No fonema, no poema.
No sonho entalado da verdade.
No dilema da felicidade.
No domingo
sento numa praça deserta.
E penso, covarde,
na próxima semana
escrita no livro da liberdade.
Timboema
Timboema
alusões ilusões
compõe-se o poema
de preferências secretas
fortuitos senões
frágil argila
amor e devaneio
se antes do tempo se vai
antes do tempo veio
em algum lugar da indiferença
em província de coisas breves
nada sei senão de ti
em última instância
Poema Matemático
Me somo
E fico um
Me multiplico
E permaneço um.
Me divido.
E continuo um.
Me diminuo.
E resto um.
Me escrevo
E sou nenhum.
finjo sonhos circunstâncias
me bifurco aqui
II
Ninguém ensina
o caminho
da mina.
Na oculta argamassa
vou à caça.
E mesmo da sobra
faço a obra.
O meu prato
é um ato
de alegria.
Também do triste
o fruto persiste.
E apesar do peso
o meu é meu
no coração aceso.
Meu sussurro
é um soco
no escuro.
E meu silêncio,
um grito fundo
nas carnes do mundo.
terça-feira, 19 de junho de 2012
Orestes Barbosa - MPB - Músico Poeta Brasileiro
Adeus
Adeus, palavra pequena
Tão grande na tradução
Adeus que eu disse com pena
Sangrando o meu coração
Eu disse adeus disfarçando
Calando a sinceridade
Com os olhos lacrimejando
Pensando já na saudade
Adeus, recordo chorando
Na mágoa dos dias meus
As tuas mãos se agitando
De longe dizendo adeus
Adeus, gaivotas voando
De tarde junto do cais
Um lenço branco acenando
Um sonho que não vem mais
Dona da minha vontade
Saudade de quando em quando
Passarinho segredando
Voam tontos rente ao chão
Felizes na primavera
Na busca da paz sincera
Do ninho do coração
Ela distante sorrindo
Talvez esteja me ouvindo
Mas meu ouvido sem saber
Que o canto que solto é medo
É o nostálgico segredo
Do que eu não posso dizer
Coração ninho de penas
No arminho de almas serenas
Tem perfume tem calor
Pobre de minha ave tonta
A lua triste desponta
E eu vou ficar sem amor
Dona da minha vontade
Escravo da ansiedade
Serei o que ela quiser
Coração porque preferes
Amar todas as mulheres
No amor de uma só mulher
A mulher que ficou na taça
Fugindo da nostalgia
Vou procurar alegria
Na ilusão dos cabarés
Sinto o beijos no meu rosto
E bebo por meu desgosto
Relembrando que tu és
E quando bebendo espio
Uma taça que esvasio
Vejo uma visão qualquer
Não distingo bem o vulto
Mas deve ser do meu culto
O culto desta mulher
Quanto mais ponho bebida
Mais a sombra colorida
Aparece no meu olhar
Aumentando o sofrimento
No cristal lento e sedento
Quero a paixão sufocar
E no anseio da desgraça
Encho mais a minha taça
Para afogar a visão
Quanto mais bebida eu ponho
Mais cresce a mulher no sonho
Na taça e no coração
E no anseio da desgraça
Encho mais a minha taça
Para afogar a visão
Quanto mais bebida eu ponho
Mais cresce a mulher no sonho
Na taça e no coração
Araruta
Tu pedes, mandando
Faça o favor
A tua boca nunca diz
Tu cedes, negando
Com estes olhos
Que pra mim são dois fuzis
Sou mole, manhoso
Teus impropérios
Retribuo com brandura
Pois água mole
Na pedra dura
Tanto bate até que fura
Tu beijas, mentindo
A tua boca
Beija e mente sem sentir
Desejas, sorrindo
Que o teu perdão
Humildemente eu va pedir
Não peco, espero
Ainda a ver-te
Entre lágrimas bem mal
Meu bem, escuta
A araruta
Tem seu dia de mingau
Adeus, palavra pequena
Tão grande na tradução
Adeus que eu disse com pena
Sangrando o meu coração
Eu disse adeus disfarçando
Calando a sinceridade
Com os olhos lacrimejando
Pensando já na saudade
Adeus, recordo chorando
Na mágoa dos dias meus
As tuas mãos se agitando
De longe dizendo adeus
Adeus, gaivotas voando
De tarde junto do cais
Um lenço branco acenando
Um sonho que não vem mais
Dona da minha vontade
Saudade de quando em quando
Passarinho segredando
Voam tontos rente ao chão
Felizes na primavera
Na busca da paz sincera
Do ninho do coração
Ela distante sorrindo
Talvez esteja me ouvindo
Mas meu ouvido sem saber
Que o canto que solto é medo
É o nostálgico segredo
Do que eu não posso dizer
Coração ninho de penas
No arminho de almas serenas
Tem perfume tem calor
Pobre de minha ave tonta
A lua triste desponta
E eu vou ficar sem amor
Dona da minha vontade
Escravo da ansiedade
Serei o que ela quiser
Coração porque preferes
Amar todas as mulheres
No amor de uma só mulher
A mulher que ficou na taça
Fugindo da nostalgia
Vou procurar alegria
Na ilusão dos cabarés
Sinto o beijos no meu rosto
E bebo por meu desgosto
Relembrando que tu és
E quando bebendo espio
Uma taça que esvasio
Vejo uma visão qualquer
Não distingo bem o vulto
Mas deve ser do meu culto
O culto desta mulher
Quanto mais ponho bebida
Mais a sombra colorida
Aparece no meu olhar
Aumentando o sofrimento
No cristal lento e sedento
Quero a paixão sufocar
E no anseio da desgraça
Encho mais a minha taça
Para afogar a visão
Quanto mais bebida eu ponho
Mais cresce a mulher no sonho
Na taça e no coração
E no anseio da desgraça
Encho mais a minha taça
Para afogar a visão
Quanto mais bebida eu ponho
Mais cresce a mulher no sonho
Na taça e no coração
Araruta
Tu pedes, mandando
Faça o favor
A tua boca nunca diz
Tu cedes, negando
Com estes olhos
Que pra mim são dois fuzis
Sou mole, manhoso
Teus impropérios
Retribuo com brandura
Pois água mole
Na pedra dura
Tanto bate até que fura
Tu beijas, mentindo
A tua boca
Beija e mente sem sentir
Desejas, sorrindo
Que o teu perdão
Humildemente eu va pedir
Não peco, espero
Ainda a ver-te
Entre lágrimas bem mal
Meu bem, escuta
A araruta
Tem seu dia de mingau
segunda-feira, 18 de junho de 2012
Lewis Carroll
Dedication
Inscribed to a Dear Child:
In Memory of Golden Summer Hours
And Whispers of a Summer Sea
Girt with a boyish garb for boyish task,
Eager she wields her spade: yet loves as well
Rest on a friendly knee, intent to ask
The tale he loves to tell.
Rude spirits of the seething outer strife,
Unmeet to read her pure and simple spright,
Deem if you list, such hours a waste of life,
Empty of all delight!
Chat on, sweet Maid, and rescue from annoy
Hearts that by wiser talk are unbeguiled.
Ah, happy he who owns that tenderest joy,
The heart-love of a child!
Acrostic
In Memory of Golden Summer Hours
And Whispers of a Summer Sea
Girt with a boyish garb for boyish task,
Eager she wields her spade: yet loves as well
Rest on a friendly knee, intent to ask
The tale he loves to tell.
Rude spirits of the seething outer strife,
Unmeet to read her pure and simple spright,
Deem if you list, such hours a waste of life,
Empty of all delight!
Chat on, sweet Maid, and rescue from annoy
Hearts that by wiser talk are unbeguiled.
Ah, happy he who owns that tenderest joy,
The heart-love of a child!
Acrostic
Little maidens, when you look
On this little story-book,
Reading with attentive eye
Its enticing history,
Never think that hours of play
Are your only HOLIDAY,
And that in a HOUSE of joy
Lessons serve but to annoy:
If in any HOUSE you find
Children of a gentle mind,
Each the others pleasing ever--
Each the others vexing never--
Daily work and pastime daily
In their order taking gaily--
Then be very sure that they
Have a life of HOLIDAY.
On this little story-book,
Reading with attentive eye
Its enticing history,
Never think that hours of play
Are your only HOLIDAY,
And that in a HOUSE of joy
Lessons serve but to annoy:
If in any HOUSE you find
Children of a gentle mind,
Each the others pleasing ever--
Each the others vexing never--
Daily work and pastime daily
In their order taking gaily--
Then be very sure that they
Have a life of HOLIDAY.
A strange wild song
He thought he saw an Elephant
That practised on a fife:
He looked again, and found it was
A letter from his wife.
"At length I realize," he said,
"The bitterness of life!"
He thought he saw a Buffalo
Upon the chimney-piece:
He looked again, and found it was
His Sister's Husband's Niece.
"Unless you leave this house," he said,
"I'll send for the police!"
he thought he saw a Rattlesnake
That questioned him in Greek:
He looked again, and found it was
The Middle of Next Week.
"The one thing I regret," he said,
"Is that it cannot speak!"
He thought he saw a Banker's Clerk
Descending from the bus:
He looked again, and found it was
A Hippopotamus.
"If this should stay to dine," he said,
"There won't be much for us!"
He thought he saw a Kangaroo
That worked a Coffee-mill:
He looked again, and found it was
A Vegetable-Pill.
"Were I to swallow this," he said,
"I should be very ill!"
He thought he saw a Coach-and-Four
That stood beside his bed:
He looked again, and found it was
A Bear without a Head.
"Poor thing," he said, "poor silly thing!
It's waiting to be fed!"
That practised on a fife:
He looked again, and found it was
A letter from his wife.
"At length I realize," he said,
"The bitterness of life!"
He thought he saw a Buffalo
Upon the chimney-piece:
He looked again, and found it was
His Sister's Husband's Niece.
"Unless you leave this house," he said,
"I'll send for the police!"
he thought he saw a Rattlesnake
That questioned him in Greek:
He looked again, and found it was
The Middle of Next Week.
"The one thing I regret," he said,
"Is that it cannot speak!"
He thought he saw a Banker's Clerk
Descending from the bus:
He looked again, and found it was
A Hippopotamus.
"If this should stay to dine," he said,
"There won't be much for us!"
He thought he saw a Kangaroo
That worked a Coffee-mill:
He looked again, and found it was
A Vegetable-Pill.
"Were I to swallow this," he said,
"I should be very ill!"
He thought he saw a Coach-and-Four
That stood beside his bed:
He looked again, and found it was
A Bear without a Head.
"Poor thing," he said, "poor silly thing!
It's waiting to be fed!"
A Game of Fives
Five little girls, of Five, Four, Three, Two, One:
Rolling on the hearthrug, full of tricks and fun.
Five rosy girls, in years from Ten to Six:
Sitting down to lessons - no more time for tricks.
Five growing girls, from Fifteen to Eleven:
Music, Drawing, Languages, and food enough for seven!
Five winsome girls, from Twenty to Sixteen:
Each young man that calls, I say "Now tell me which you MEAN!"
Five dashing girls, the youngest Twenty-one:
But, if nobody proposes, what is there to be done?
Five showy girls - but Thirty is an age
When girls may be ENGAGING, but they somehow don't ENGAGE.
Five dressy girls, of Thirty-one or more:
So gracious to the shy young men they snubbed so much before!
Five PASSE girls - Their age? Well, never mind!
We jog along together, like the rest of human kind:
But the quondam "careless bachelor" begins to think he knows
The answer to that ancient problem "how the money goes"!
Rolling on the hearthrug, full of tricks and fun.
Five rosy girls, in years from Ten to Six:
Sitting down to lessons - no more time for tricks.
Five growing girls, from Fifteen to Eleven:
Music, Drawing, Languages, and food enough for seven!
Five winsome girls, from Twenty to Sixteen:
Each young man that calls, I say "Now tell me which you MEAN!"
Five dashing girls, the youngest Twenty-one:
But, if nobody proposes, what is there to be done?
Five showy girls - but Thirty is an age
When girls may be ENGAGING, but they somehow don't ENGAGE.
Five dressy girls, of Thirty-one or more:
So gracious to the shy young men they snubbed so much before!
Five PASSE girls - Their age? Well, never mind!
We jog along together, like the rest of human kind:
But the quondam "careless bachelor" begins to think he knows
The answer to that ancient problem "how the money goes"!
domingo, 17 de junho de 2012
Antonio Carlos Ferreira de Brito (Cacaso)
Happy end
O meu amor e eu
nascemos um para o outro
agora só falta quem nos apresente
Estilos trocados
Meu futuro amor passeia — literalmente — nos
píncaros daquela nuvem.
Mas na hora de levar o tombo adivinha quem cai.
Passeio no bosque
O meu amor e eu
nascemos um para o outro
agora só falta quem nos apresente
Estilos trocados
Meu futuro amor passeia — literalmente — nos
píncaros daquela nuvem.
Mas na hora de levar o tombo adivinha quem cai.
Quem
de dentro de si não sai
Vai morrer sem amar ninguém
Vai morrer sem amar ninguém
A parte perguntou para a parte qual
delas
é menos parte da parte que se descarte.
Pois pasmem: a parte respondeu para a parte
que a parte que é mais — ou menos — parte
é aquela que se reparte.
é menos parte da parte que se descarte.
Pois pasmem: a parte respondeu para a parte
que a parte que é mais — ou menos — parte
é aquela que se reparte.
Passeio no bosque
o canivete na mão não deixa
marcas no tronco da goiabeira
cicatrizes não se transferem
marcas no tronco da goiabeira
cicatrizes não se transferem
Madrigal para um amor
Luz da Noite Lis da Noite
meu destino é te adorar.
Serei cavalo marinho
quando a lua semi fátua
emergir de meu canteiro
e tu tiveres saído
em meus trajes de luar.
Serei concha privativa,
turmalina, carruagem,
Mas só se tu, Luz da Noite,
teu delírio nesta margem
já quiseres desaguar.
(Não te faças tão ingrata
meu bem! Quedo ferido
e meus olhos são cantatas
que suplicam não me mates
em adunco anzol de prata!)
E quanto nós nos amamos
em nossa vítrea viagem
de geada e de serragem
pelo meio continente!
Luz da Noite Lis da Noite
meu destino é te seguir.
Meu inábil clavicórdio
soluça pela raiz,
e já pareces tão farta
que nem sequer onde filtra
meu lado bom te conduz:
Minha amiga vou fremindo
embebido em tua luz.
meu destino é te adorar.
Serei cavalo marinho
quando a lua semi fátua
emergir de meu canteiro
e tu tiveres saído
em meus trajes de luar.
Serei concha privativa,
turmalina, carruagem,
Mas só se tu, Luz da Noite,
teu delírio nesta margem
já quiseres desaguar.
(Não te faças tão ingrata
meu bem! Quedo ferido
e meus olhos são cantatas
que suplicam não me mates
em adunco anzol de prata!)
E quanto nós nos amamos
em nossa vítrea viagem
de geada e de serragem
pelo meio continente!
Luz da Noite Lis da Noite
meu destino é te seguir.
Meu inábil clavicórdio
soluça pela raiz,
e já pareces tão farta
que nem sequer onde filtra
meu lado bom te conduz:
Minha amiga vou fremindo
embebido em tua luz.
sábado, 16 de junho de 2012
Lêdo Ivo
O cavalo
No campo matinal
um cavalo assediado
pelo zumbir das moscas
mastiga avidamente,
o capim do universo.
Os insetos volteiam
no anel azul do mundo
- esfera sem passado
nos ares momentâneos.
Não há mitologia
espalhada na relva
que é verde, sem caminhos,
longe das longes terras.
E o cavalo sobrado
da inenarrável guerra
e da paz defendida
à sombra das espadas
mata a fome no campo
onde não jazem mortos
nem retroam clarins.
Sua crina estremece.
E seus cascos escarvam
a plácida planície
coberta pelos pássaros.
Já sem fome, relincha
para os céus que não guardam
as fanfarras e flâmulas
e a fumaça da História,
e se muda em estátua.
Canto Grande
Não tenho mais canções de amor.
Joguei tudo pela janela.
Em companhia da linguagem
fiquei, e o mundo se elucida.
Do mar guardei a melhor onda
que é menos móvel que o amor.
E da vida, guardei a dor
de todos os que estão sofrendo.
Sou um homem que perdeu tudo
mas criou a realidade,
fogueira de imagens, depósito
de coisas que jamais explodem.
De tudo quero o essencial:
o aqueduto de uma cidade,
rodovia do litoral,
o refluxo de uma palavra.
Longe dos céus, mesmo dos próximos,
e perto dos confins da terra,
aqui estou. Minha canção
enfrenta o inverno, é de concreto.
Meu coração está batendo
sua canção de amor maior.
Bate por toda a humanidade,
em verdade não estou só.
Posso agora comunicar-me
e sei que o mundo é muito grande.
Pela mão, levam-me as palavras
a geografias absolutas.
Os Peixes
Os peixes estão no lago, os dardos escondidos.
Entre as pedras e o lodo eles avançam
túrgidos como o amor.
Venha a mão do desejo turvar a água clara
e eles serão o amor, o sol que penetra em gretas
nupciais,
as espadas cobertas de saliva.
Haicai
Noite de Domingo
Acabou-se a festa.
Resta, no silêncio,
o rumor da floresta.
O Lago Habitado
Na água trêmula
freme a pálida
anêmona.
No campo matinal
um cavalo assediado
pelo zumbir das moscas
mastiga avidamente,
o capim do universo.
Os insetos volteiam
no anel azul do mundo
- esfera sem passado
nos ares momentâneos.
Não há mitologia
espalhada na relva
que é verde, sem caminhos,
longe das longes terras.
E o cavalo sobrado
da inenarrável guerra
e da paz defendida
à sombra das espadas
mata a fome no campo
onde não jazem mortos
nem retroam clarins.
Sua crina estremece.
E seus cascos escarvam
a plácida planície
coberta pelos pássaros.
Já sem fome, relincha
para os céus que não guardam
as fanfarras e flâmulas
e a fumaça da História,
e se muda em estátua.
Canto Grande
Não tenho mais canções de amor.
Joguei tudo pela janela.
Em companhia da linguagem
fiquei, e o mundo se elucida.
Do mar guardei a melhor onda
que é menos móvel que o amor.
E da vida, guardei a dor
de todos os que estão sofrendo.
Sou um homem que perdeu tudo
mas criou a realidade,
fogueira de imagens, depósito
de coisas que jamais explodem.
De tudo quero o essencial:
o aqueduto de uma cidade,
rodovia do litoral,
o refluxo de uma palavra.
Longe dos céus, mesmo dos próximos,
e perto dos confins da terra,
aqui estou. Minha canção
enfrenta o inverno, é de concreto.
Meu coração está batendo
sua canção de amor maior.
Bate por toda a humanidade,
em verdade não estou só.
Posso agora comunicar-me
e sei que o mundo é muito grande.
Pela mão, levam-me as palavras
a geografias absolutas.
Os Peixes
Os peixes estão no lago, os dardos escondidos.
Entre as pedras e o lodo eles avançam
túrgidos como o amor.
Venha a mão do desejo turvar a água clara
e eles serão o amor, o sol que penetra em gretas
nupciais,
as espadas cobertas de saliva.
Haicai
Noite de Domingo
Acabou-se a festa.
Resta, no silêncio,
o rumor da floresta.
O Lago Habitado
Na água trêmula
freme a pálida
anêmona.
quinta-feira, 14 de junho de 2012
Jane Austen
This little bag
This little bag I hope will prove
To be not vainly made--
For, if you should a needle want
It will afford you aid.
And as we are about to part
T'will serve another end,
For when you look upon the Bag
You'll recollect your friend.
This little bag I hope will prove
To be not vainly made--
For, if you should a needle want
It will afford you aid.
And as we are about to part
T'will serve another end,
For when you look upon the Bag
You'll recollect your friend.
See they come
See they come, post haste from Thanet,
Lovely couple, side by side;
They've left behind them Richard Kennet
With the Parents of the Bride!
Canterbury they have passed through;
Next succeeded Stamford-bridge;
Chilham village they came fast through;
Now they've mounted yonder ridge.
Down the hill they're swift proceeding,
Now they skirt the Park around;
Lo! The Cattle sweetly feeding
Scamper, startled at the sound!
Run, my Brothers, to the Pier gate!
Throw it open, very wide!
Let it not be said that we're late
In welcoming my Uncle's Bride!
To the house the chaise advances;
Now it stops--They're here, they're here!
How d'ye do, my Uncle Francis?
How does do your Lady dear?
Ode to Pity
See they come, post haste from Thanet,
Lovely couple, side by side;
They've left behind them Richard Kennet
With the Parents of the Bride!
Canterbury they have passed through;
Next succeeded Stamford-bridge;
Chilham village they came fast through;
Now they've mounted yonder ridge.
Down the hill they're swift proceeding,
Now they skirt the Park around;
Lo! The Cattle sweetly feeding
Scamper, startled at the sound!
Run, my Brothers, to the Pier gate!
Throw it open, very wide!
Let it not be said that we're late
In welcoming my Uncle's Bride!
To the house the chaise advances;
Now it stops--They're here, they're here!
How d'ye do, my Uncle Francis?
How does do your Lady dear?
Ode to Pity
1
Ever musing I delight to tread
The Paths of honour and the Myrtle Grove
Whilst the pale Moon her beams doth shed
On disappointed Love.
While Philomel on airy hawthorn Bush
Sings sweet and Melancholy, And the thrush
Converses with the Dove.
2
Gently brawling down the turnpike road,
Sweetly noisy falls the Silent Stream--
The Moon emerges from behind a Cloud
And darts upon the Myrtle Grove her beam.
Ah! then what Lovely Scenes appear,
The hut, the Cot, the Grot, and Chapel queer,
And eke the Abbey too a mouldering heap,
Cnceal'd by aged pines her head doth rear
And quite invisible doth take a peep
When Stretch'd on One's Bed
When stretch'd on one's bed
With a fierce-throbbing head,
Which preculdes alike thought or repose,
How little one cares
For the grandest affairs
That may busy the world as it goes!
How little one feels
For the waltzes and reels
Of our Dance-loving friends at a Ball!
How slight one's concern
To conjecture or learn
What their flounces or hearts may befall.
How little one minds
If a company dines
On the best that the Season affords!
How short is one's muse
O'er the Sauces and Stews,
Or the Guests, be they Beggars or Lords.
How little the Bells,
Ring they Peels, toll they Knells,
Can attract our attention or Ears!
The Bride may be married,
The Corse may be carried
And touch nor our hopes nor our fears.
Our own bodily pains
Ev'ry faculty chains;
We can feel on no subject besides.
Tis in health and in ease
We the power must seize
For our friends and our souls to provide.
Ever musing I delight to tread
The Paths of honour and the Myrtle Grove
Whilst the pale Moon her beams doth shed
On disappointed Love.
While Philomel on airy hawthorn Bush
Sings sweet and Melancholy, And the thrush
Converses with the Dove.
2
Gently brawling down the turnpike road,
Sweetly noisy falls the Silent Stream--
The Moon emerges from behind a Cloud
And darts upon the Myrtle Grove her beam.
Ah! then what Lovely Scenes appear,
The hut, the Cot, the Grot, and Chapel queer,
And eke the Abbey too a mouldering heap,
Cnceal'd by aged pines her head doth rear
And quite invisible doth take a peep
When Stretch'd on One's Bed
When stretch'd on one's bed
With a fierce-throbbing head,
Which preculdes alike thought or repose,
How little one cares
For the grandest affairs
That may busy the world as it goes!
How little one feels
For the waltzes and reels
Of our Dance-loving friends at a Ball!
How slight one's concern
To conjecture or learn
What their flounces or hearts may befall.
How little one minds
If a company dines
On the best that the Season affords!
How short is one's muse
O'er the Sauces and Stews,
Or the Guests, be they Beggars or Lords.
How little the Bells,
Ring they Peels, toll they Knells,
Can attract our attention or Ears!
The Bride may be married,
The Corse may be carried
And touch nor our hopes nor our fears.
Our own bodily pains
Ev'ry faculty chains;
We can feel on no subject besides.
Tis in health and in ease
We the power must seize
For our friends and our souls to provide.
segunda-feira, 11 de junho de 2012
Francisco Carvalho
Fosso
O povo fala grosso
mas não segue adiante
porque tem um fosso.
O povo mostra o rosto
mas não pode ser visto
porque tem um fosso.
O povo não tem sobrosso
mas é expulso da festa
porque tem um fosso.
O povo paga imposto
mas fica à margem do rio
porque tem um fosso.
Fosse de que modo fosse
a vida não mudaria
porque tem um fosso.
A fome mostra o seu dorso
mas não prova do manjar
porque tem um fosso.
Espectros de pele e osso
contai vossa fome ao vento
porque tem um fosso.
O povo fala grosso
mas não segue adiante
porque tem um fosso.
O povo mostra o rosto
mas não pode ser visto
porque tem um fosso.
O povo não tem sobrosso
mas é expulso da festa
porque tem um fosso.
O povo paga imposto
mas fica à margem do rio
porque tem um fosso.
Fosse de que modo fosse
a vida não mudaria
porque tem um fosso.
A fome mostra o seu dorso
mas não prova do manjar
porque tem um fosso.
Espectros de pele e osso
contai vossa fome ao vento
porque tem um fosso.
Lavoura
As minhas mãos
já foram robustas
já plantaram
sementes de milho
nas terras dos filisteus
hoje só semeiam
as lavouras do adeus.
Adágio para um tigre
Quando ele passeia pela floresta
os astros se escondem em seus casulos
de cristal e as ramagens genuflexas
derramam no ar gorjeios de alaúdes.
O tigre escuta o cântico das árvores
seduzidas pela flauta de Pã.
Seus olhos, dançarinos entre as flores
querem dormir ao sol de Aldebarã.
A noite arrasta o seu manto de búzios
sobre os pântanos coroados de chamas.
O tigre é um deus que sai de seus refúgios
para comer os brolhos das semanas.
O vento apaga as lâmpadas dos charcos
volta a zumbir nas veias dos cipós.
O tigre escreve a lenda de seus passos.
Em seu rumor canta secreta voz.
As horas passam, suas vestes longas
tocam de leve as harpas das clareiras.
O andar do tigre e o espírito das sombras
são dois impulsos para as profundezas.
Poema para escrever no asfalto
Agora eu sei o quanto basta à ceia do coração
e o quanto sobra do naufrágio
das nossas utopias.
Agora eu sei o que significa a fala dos mortos
e esta parábola soterrada
que jorra das veias da pedra.
Agora eu sei o quanto custa o ouro das palavras
e este pacto de sangue
com as metáforas do tempo.
Agora eu sei o que se passa no coração de treva
e do homem que morre mendigando
a própria liberdade.
Agora eu sei que o pão da terra nunca foi repartido
com a nossa pobreza
e com a solidão de ninguém.
Agora eu sei que é preciso agarrar a vida
como se fosse a última dádiva
colocada em nossas mãos.
Edgar Allan Poe
Romance
Romance, who loves to nod and sing
With drowsy head and folded wing
Among the green leaves as they shake
Far down within some shadowy lake,
To me a painted paroquet
Hath been—most familiar bird—
Taught me my alphabet to say,
To lisp my very earliest word
While in the wild wood I did lie,
A child—with a most knowing eye.
Of late, eternal condor years
So shake the very Heaven on high
With tumult as they thunder by,
I have no time for idle cares
Through gazing on the unquiet sky;
And when an hour with calmer wings
Its down upon my spirit flings,
That little time with lyre and rhyme
To while away—forbidden things—
My heart would feel to be a crime
Unless it trembled with the strings.
An Enigma
Seldom we find," says Solomon Don Dunce,
"Half an idea in the profoundest sonnet.
Through all the flimsy things we see at once
As easily as through a Naples bonnet-
Trash of all trash!- how can a lady don it?
Yet heavier far than your Petrarchan stuff-
Owl-downy nonsense that the faintest puff
Twirls into trunk-paper the while you con it."
And, veritably, Sol is right enough.
The general tuckermanities are arrant
Bubbles- ephemeral and so transparent-
But this is, now- you may depend upon it-
Stable, opaque, immortal- all by dint
Of the dear names that he concealed within 't.
To my mother
Because I feel that, in the Heavens above,
The angels, whispering to one another,
Can find, among their burning terms of love,
None so devotional as that of "Mother,"
Therefore by that dear name I long have called you-
You who are more than mother unto me,
And fill my heart of hearts, where Death installed you
In setting my Virginia's spirit free.
My mother- my own mother, who died early,
Was but the mother of myself; but you
Are mother to the one I loved so dearly,
And thus are dearer than the mother I knew
By that infinity with which my wife
Was dearer to my soul than its soul-life.
Serenade
So sweet the hour, so calm the time,
I feel it more than half a crime,
When Nature sleeps and stars are mute,
To mar the silence ev'n with lute.
At rest on ocean's brilliant dyes
An image of Elysium lies:
Seven Pleiades entranced in Heaven,
Form in the deep another seven:
Endymion nodding from above
Sees in the sea a second love.
Within the valleys dim and brown,
And on the spectral mountain's crown,
The wearied light is dying down,
And earth, and stars, and sea, and sky
Are redolent of sleep, as I
Am redolent of thee and thine
Enthralling love, my Adeline.
But list, O list,- so soft and low
Thy lover's voice tonight shall flow,
That, scarce awake, thy soul shall deem
My words the music of a dream.
Thus, while no single sound too rude
Upon thy slumber shall intrude,
Our thoughts, our souls- O God above!
In every deed shall mingle, love.
Romance, who loves to nod and sing
With drowsy head and folded wing
Among the green leaves as they shake
Far down within some shadowy lake,
To me a painted paroquet
Hath been—most familiar bird—
Taught me my alphabet to say,
To lisp my very earliest word
While in the wild wood I did lie,
A child—with a most knowing eye.
Of late, eternal condor years
So shake the very Heaven on high
With tumult as they thunder by,
I have no time for idle cares
Through gazing on the unquiet sky;
And when an hour with calmer wings
Its down upon my spirit flings,
That little time with lyre and rhyme
To while away—forbidden things—
My heart would feel to be a crime
Unless it trembled with the strings.
An Enigma
Seldom we find," says Solomon Don Dunce,
"Half an idea in the profoundest sonnet.
Through all the flimsy things we see at once
As easily as through a Naples bonnet-
Trash of all trash!- how can a lady don it?
Yet heavier far than your Petrarchan stuff-
Owl-downy nonsense that the faintest puff
Twirls into trunk-paper the while you con it."
And, veritably, Sol is right enough.
The general tuckermanities are arrant
Bubbles- ephemeral and so transparent-
But this is, now- you may depend upon it-
Stable, opaque, immortal- all by dint
Of the dear names that he concealed within 't.
To my mother
Because I feel that, in the Heavens above,
The angels, whispering to one another,
Can find, among their burning terms of love,
None so devotional as that of "Mother,"
Therefore by that dear name I long have called you-
You who are more than mother unto me,
And fill my heart of hearts, where Death installed you
In setting my Virginia's spirit free.
My mother- my own mother, who died early,
Was but the mother of myself; but you
Are mother to the one I loved so dearly,
And thus are dearer than the mother I knew
By that infinity with which my wife
Was dearer to my soul than its soul-life.
Serenade
So sweet the hour, so calm the time,
I feel it more than half a crime,
When Nature sleeps and stars are mute,
To mar the silence ev'n with lute.
At rest on ocean's brilliant dyes
An image of Elysium lies:
Seven Pleiades entranced in Heaven,
Form in the deep another seven:
Endymion nodding from above
Sees in the sea a second love.
Within the valleys dim and brown,
And on the spectral mountain's crown,
The wearied light is dying down,
And earth, and stars, and sea, and sky
Are redolent of sleep, as I
Am redolent of thee and thine
Enthralling love, my Adeline.
But list, O list,- so soft and low
Thy lover's voice tonight shall flow,
That, scarce awake, thy soul shall deem
My words the music of a dream.
Thus, while no single sound too rude
Upon thy slumber shall intrude,
Our thoughts, our souls- O God above!
In every deed shall mingle, love.
Andrei Voznesensky
The song
Sailor, my dear, my heaven-made spouse!
There is one thing that I beg of you, man:
Kiss any strangers, and give them your flowers,
love many women. But, pray, don't love one.
These are the words that I send with my letter,
piercing land after land they will moan;
stay there as long as you wish, and you'd better
love all the countries, but, pray, don't love one.
Give me a whistle -- when tired of roving.
Held in sweet bondage, or about to drown,
play with your life as you wish, when you're roaming,
but don't ruin ours because it is one.
Fate
Fate is above me. Why should I browse?
Sleeping in dosses, an outcast, I rove.
Grief is a cellar,
that opens in every old house.
A ditch is below me and fate is above.
What did I want? Well, a life of contentment.
What did I get? Just a coffin and wreath...
Under the cradle a grave has been latent.
Fate is above me, a ditch is beneath.
Up in the sky my soul, like a hound,
howls, despaired,
the trigger to pull it was keen.
Fate has come over my family background,
and on the earth where fate is my kin.
What have I done, apart from the simple
poems I've written in passing to date?
I've been a lightening conductor for people.
Now I have broken my back. Such is fate.
Self-Portrait
Unshaven and thin, with an angular face
He's lain on my mattress
for several days.
A cast-iron shadow hangs down the stair,
the lips, huge and bulging, smuggle and flare.
"Hello, Russian poets, -- his voice sounds wistful --
shall I give you a razor or, maybe, a pistol?
Are you a genius? Disdain all this chaos...
Or, p'rhaps, you will say your confessional prayers?
Or take a newspaper, clip out a bar
and roll self-reproach like you roll a cigar?"
Why is he cuddling you when I'm there?
Why is he trying my scarf on? How dare?
He's squinting at my cigarettes... Oh yes!
Keep off me! Keep off!
SOS! SOS!
Abuses and awards
A poet can't be in disfavour,
he needs no awards, no fame.
A star has no setting whatever,
no black nor a golden frame.
A star can't be killed with a stone, or
award, or that kind of stuff.
He'll bear the blow of a fawner
lamenting he's not big enough.
What matters is music and fervour,
not fame, nor abuse, anyway.
World powers are out of favour
when poets turn them away.
Sailor, my dear, my heaven-made spouse!
There is one thing that I beg of you, man:
Kiss any strangers, and give them your flowers,
love many women. But, pray, don't love one.
These are the words that I send with my letter,
piercing land after land they will moan;
stay there as long as you wish, and you'd better
love all the countries, but, pray, don't love one.
Give me a whistle -- when tired of roving.
Held in sweet bondage, or about to drown,
play with your life as you wish, when you're roaming,
but don't ruin ours because it is one.
Fate
Fate is above me. Why should I browse?
Sleeping in dosses, an outcast, I rove.
Grief is a cellar,
that opens in every old house.
A ditch is below me and fate is above.
What did I want? Well, a life of contentment.
What did I get? Just a coffin and wreath...
Under the cradle a grave has been latent.
Fate is above me, a ditch is beneath.
Up in the sky my soul, like a hound,
howls, despaired,
the trigger to pull it was keen.
Fate has come over my family background,
and on the earth where fate is my kin.
What have I done, apart from the simple
poems I've written in passing to date?
I've been a lightening conductor for people.
Now I have broken my back. Such is fate.
Self-Portrait
Unshaven and thin, with an angular face
He's lain on my mattress
for several days.
A cast-iron shadow hangs down the stair,
the lips, huge and bulging, smuggle and flare.
"Hello, Russian poets, -- his voice sounds wistful --
shall I give you a razor or, maybe, a pistol?
Are you a genius? Disdain all this chaos...
Or, p'rhaps, you will say your confessional prayers?
Or take a newspaper, clip out a bar
and roll self-reproach like you roll a cigar?"
Why is he cuddling you when I'm there?
Why is he trying my scarf on? How dare?
He's squinting at my cigarettes... Oh yes!
Keep off me! Keep off!
SOS! SOS!
Abuses and awards
A poet can't be in disfavour,
he needs no awards, no fame.
A star has no setting whatever,
no black nor a golden frame.
A star can't be killed with a stone, or
award, or that kind of stuff.
He'll bear the blow of a fawner
lamenting he's not big enough.
What matters is music and fervour,
not fame, nor abuse, anyway.
World powers are out of favour
when poets turn them away.
sábado, 9 de junho de 2012
Ascenso Ferreira
Filosofia
Hora de dormir — dormir!
Hora de vadiar — vadiar!
Hora de trabalhar?
— Pernas pro ar que ninguém é de ferro!
A mula de padre
Um dia no engenho,
Já tarde da noite
Que estava tão preta
Como carvão...
A gente falava de assombração:
— O avô de Zé Pinga-Fogo
Amanheceu morto na mata
Com o peito varado
Pela canela do Pé-de-Espeto!
— O cachorro de Brabo Manso
Levou, sexta-feira passada,
Uma surra das caiporas!
— A Mula de Padre quis beber o sangue
Da mulher de Chico Lolão...
Na noite preta como carvão
A gente falava de assombração!
Lá em baixo a almanjarra,
A rara almanjarra,
Gemia e rangia
Oue o Engenho Alegria
É bom moedor...
Eh Andorinha!
Eh Moça-Branca!
Eh Beija-Flor. . .
Pela bagaceira
Os bois ruminavam
E as éguas pastavam
Esperando a vez
De entrar no rojão...
Foi quando se deu
A coisa esquisita:
Mordendo, rinchando,
As pôpas e aos pulos
Se pondo de pé
Com artes do cão,
Surgiu uma besta sem ser dali não...
— Atallia a bicha, Baraúna!
— Sustenta o laço, Maracanã!
E a besta agarrada
Entrou na almanjarra,
Tocou-se-lhe a peia
Até de manhã ...
E depois que ela foi solta
Entupiu no oco do mundo!
Num abrir e fechar d'olhos
A maldita se encantou...
De tardinha.
Gente vinda
Da cidade
Trouxe a nova
De que a ama
De seu padre
Serrador
Amanhecera tão surrada
Que causa compaixão!
.....................................
Na noite tão preta como carvão
A gente falava de assombração
A cavalhada
Fitas e fitas...
Fitas e fitas...
Fitas e fitas...
Roxas,
verdes,
brancas,
azuis,
Alegria nervosa de bandeirinhas trêmulas!
Bandeirinhas de papel bulindo no vento!...
Foguetes do ar...
— "De ordem do Rei dos Cavaleiros,
a cavalhada vai começar!"
Fitas e fitas...
Fitas e fitas...
Fitas e fitas...
Roxas,
verdes,
brancas,
azuis...
— Lá vem Papa-Légua em toda carreira
e vem com os arreios luzindo no sol!
— Danou-se! Vai tirar a argolinha!
— Pra quem será?
— Lá vem Pé-de-Vento!
— Lá vem Tira-Teima!
— Lá vem Fura-Mundo!
— Lá vem Sarará!
— Passou lambendo!
— Se tivesse cabelo, tirava!...
— Andou beirando!...
— Tirou!!!
— Música, seu mestre!
— Foguetes, moleque!
— Palmas, negrada!
— Tiraram a argolinha!
— Foi Sarará!
Fitas e fitas...
Fitas e fitas...
Fitas e fitas...
Roxas,
verdes,
brancas,
azuis...
— Viva a cavalhada!
— Vivôô!!!
— De ordem do Rei dos Cavaleiros,
a cavalhada vai terminar!
sexta-feira, 8 de junho de 2012
Rodrigo Garcia Lopes
Fugaz
passagem por uma paisagem,
lugar do onde, do ontem, do quando,
quantas palavras ficaram faltando
na boca cheia de imagens.
o outro é aquele que ficou à margem,
no espanto de um pronome,
no corpo de uma brisa suave;
o outro é como uma fome
pluma à deriva, à distância, ou quase.
estranho em sua própria viagem,
garrafa com uma mensagem,
olhar durando numa flor,
sem nome, secreta, selvagem.
Desterro, água bebida num trem,
peça incompleta, festa adiada, vertigem,
a cabeça sempre em alguém,
eu outro, eu todos, ninguém.
Lá vem você
Lá vem você
Se passando por vento
Como se ninguém te visse
Lá vem você dublando pensamento
Como praia que sentisse
Pra perto do riso, do risco, do início
Das ondas das dunas do espanto,
Lá onde o calar fala mais alto
E onde o momento comemora
Com um minuto de silêncio.
Somos pessoas estranhas
somos
pessoas
estranhas
nem sabemos
que sonhos
que somos
esses
olhos
poucos
essas
folhas
secas?
esqueça
fiquem
calados
somos
estranhos
no entanto
esta noite
dormiremos
lado a lado
A Tempestade
Canibal, palavra latina,
à maneira de canis, animal
de fidelidade canina.
Nas Bermudas, sublime ironia,
será um vento do cão
e vai se chamar hurracán
E quando o mar de lã
de repente apontar terra à vista
Então será Caliban
passagem por uma paisagem,
lugar do onde, do ontem, do quando,
quantas palavras ficaram faltando
na boca cheia de imagens.
o outro é aquele que ficou à margem,
no espanto de um pronome,
no corpo de uma brisa suave;
o outro é como uma fome
pluma à deriva, à distância, ou quase.
estranho em sua própria viagem,
garrafa com uma mensagem,
olhar durando numa flor,
sem nome, secreta, selvagem.
Desterro, água bebida num trem,
peça incompleta, festa adiada, vertigem,
a cabeça sempre em alguém,
eu outro, eu todos, ninguém.
Lá vem você
Lá vem você
Se passando por vento
Como se ninguém te visse
Lá vem você dublando pensamento
Como praia que sentisse
Pra perto do riso, do risco, do início
Das ondas das dunas do espanto,
Lá onde o calar fala mais alto
E onde o momento comemora
Com um minuto de silêncio.
Somos pessoas estranhas
somos
pessoas
estranhas
nem sabemos
que sonhos
que somos
esses
olhos
poucos
essas
folhas
secas?
esqueça
fiquem
calados
somos
estranhos
no entanto
esta noite
dormiremos
lado a lado
A Tempestade
Canibal, palavra latina,
à maneira de canis, animal
de fidelidade canina.
Nas Bermudas, sublime ironia,
será um vento do cão
e vai se chamar hurracán
E quando o mar de lã
de repente apontar terra à vista
Então será Caliban
quinta-feira, 7 de junho de 2012
Natasha Trethewey
<><><><>
Vespertina Cognitio Overhead, pelicans glide in threes— their shadows across the sand dark thoughts crossing the mind. Beyond the fringe of coast, shrimpers hoist their nets, weighing the harvest against the day's losses. Light waning, concentration is a lone gull circling what's thrown back. Debris weights the trawl like stones. All day, this dredging—beneath the tug of waves—rhythm of what goes out, comes back, comes back, comes back. | |
Providence
What's left is footage: the hours before Camille, 1969—hurricane parties, palm trees leaning in the wind, fronds blown back, a woman's hair. Then after: the vacant lots, boats washed ashore, a swamp where graves had been. I recall how we huddled all night in our small house, moving between rooms, emptying pots filled with rain. The next day, our house— on its cinderblocks—seemed to float in the flooded yard: no foundation beneath us, nothing I could see tying us to the land. In the water, our reflection trembled, disappeared when I bent to touch it. Pilgrimage Here, the Mississippi carved its mud-dark path, a graveyard for skeletons of sunken riverboats. Here, the river changed its course, turning away from the city as one turns, forgetting, from the past— the abandoned bluffs, land sloping up above the river's bend—where now the Yazoo fills the Mississippi's empty bed. Here, the dead stand up in stone, white marble, on Confederate Avenue. I stand on ground once hollowed by a web of caves; they must have seemed like catacombs, in 1863, to the woman sitting in her parlor, candlelit, underground. I can see her listening to shells explode, writing herself into history, asking what is to become of all the living things in this place? This whole city is a grave. Every spring— Pilgrimage—the living come to mingle with the dead, brush against their cold shoulders in the long hallways, listen all night to their silence and indifference, relive their dying on the green battlefield. At the museum, we marvel at their clothes— preserved under glass—so much smaller than our own, as if those who wore them were only children. We sleep in their beds, the old mansions hunkered on the bluffs, draped in flowers—funereal—a blur of petals against the river's gray. The brochure in my room calls this living history. The brass plate on the door reads Prissy's Room. A window frames the river's crawl toward the Gulf. In my dream, the ghost of history lies down beside me, rolls over, pins me beneath a heavy arm. Theories of time and space You can get there from here, though there’s no going home. Everywhere you go will be somewhere you’ve never been. Try this: head south on Mississippi 49, one- by-one mile markers ticking off another minute of your life. Follow this to its natural conclusion – dead end at the coast, the pier at Gulfport where riggings of shrimp boats are loose stitches in a sky threatening rain. Cross over the man-made beach, 26 miles of sand dumped on a mangrove swamp – buried terrain of the past. Bring only what you must carry – tome of memory its random blank pages. On the dock where you board the boat for Ship Island, someone will take your picture: the photograph – who you were – will be waiting when you return |
Cassiano Ricardo
Desejo
As coisas que não conseguem morrer
Só por isso são chamadas eternas.
As estrelas, dolorosas lanternas
Que não sabem o que é deixar de ser.
Ó força incognoscível que governas
O meu querer, como o meu não-querer.
Quisera estar entre as simples luzernas
Que morrem no primeiro entardecer.
Ser deus — e não as coisas mais ditosas
Quanto mais breves, como são as rosas
É não sonhar, é nada mais obter.
Ó alegria dourada de o não ser
Entre as coisas que são, e as nebulosas,
Que não conseguiu dormir nem morrer.
A rua
Bem sei que, muitas vezes,
O único remédio
É adiar tudo. É adiar a sede, a fome, a viagem,
A dívida, o divertimento,
O pedido de emprego, ou a própria alegria.
A esperança é também uma forma
De continuo adiamento.
Sei que é preciso prestigiar a esperança,
Numa sala de espera.
Mas sei também que espera significa luta e não, apenas,
Esperança sentada.
Não abdicação diante da vida.
A esperança
Nunca é a forma burguesa, sentada e tranqüila da espera.
Nunca é figura de mulher
Do quadro antigo.
Sentada, dando milho aos pombos.
Relâmpago
A onça pintada saltou tronco acima que nem um relâmpago
de rabo comprido e cabeça amarela:
Zás!
Mas uma flecha ainda mais rápida que o relâmpago fez
rolar ali mesmo
Aquele matinal gatão elétrico e bigodudo
Que ficou estendido no chão feito um fruto de cor
que tivesse caído de uma árvore!
Canção para poder viver
Dou-lhe tudo do que como,
e ela me exige o último gomo.
Dou-lhe a roupa com que me visto
e ela me interroga: só isto?
Se ela se fere num espinho,
O meu sangue é que é o seu vinho.
Se ela tem sede eu é que choro,
no deserto, para lhe dar água:
E ela mata a sua sede,
já no copo de minha mágoa
Dou-lhe o meu canto louco; faço
um pouco mais do que ser louco.
E ela me exige bis, "ao palco"!
As coisas que não conseguem morrer
Só por isso são chamadas eternas.
As estrelas, dolorosas lanternas
Que não sabem o que é deixar de ser.
Ó força incognoscível que governas
O meu querer, como o meu não-querer.
Quisera estar entre as simples luzernas
Que morrem no primeiro entardecer.
Ser deus — e não as coisas mais ditosas
Quanto mais breves, como são as rosas
É não sonhar, é nada mais obter.
Ó alegria dourada de o não ser
Entre as coisas que são, e as nebulosas,
Que não conseguiu dormir nem morrer.
A rua
Bem sei que, muitas vezes,
O único remédio
É adiar tudo. É adiar a sede, a fome, a viagem,
A dívida, o divertimento,
O pedido de emprego, ou a própria alegria.
A esperança é também uma forma
De continuo adiamento.
Sei que é preciso prestigiar a esperança,
Numa sala de espera.
Mas sei também que espera significa luta e não, apenas,
Esperança sentada.
Não abdicação diante da vida.
A esperança
Nunca é a forma burguesa, sentada e tranqüila da espera.
Nunca é figura de mulher
Do quadro antigo.
Sentada, dando milho aos pombos.
Relâmpago
A onça pintada saltou tronco acima que nem um relâmpago
de rabo comprido e cabeça amarela:
Zás!
Mas uma flecha ainda mais rápida que o relâmpago fez
rolar ali mesmo
Aquele matinal gatão elétrico e bigodudo
Que ficou estendido no chão feito um fruto de cor
que tivesse caído de uma árvore!
Canção para poder viver
Dou-lhe tudo do que como,
e ela me exige o último gomo.
Dou-lhe a roupa com que me visto
e ela me interroga: só isto?
Se ela se fere num espinho,
O meu sangue é que é o seu vinho.
Se ela tem sede eu é que choro,
no deserto, para lhe dar água:
E ela mata a sua sede,
já no copo de minha mágoa
Dou-lhe o meu canto louco; faço
um pouco mais do que ser louco.
E ela me exige bis, "ao palco"!
quarta-feira, 6 de junho de 2012
Augusto dos Anjos
Versos Íntimos
Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!
A idéia
De onde ela vem?! De que matéria bruta
Vem essa luz que sobre as nebulosas
Cai de incógnitas criptas misteriosas
Como as estalactites duma gruta?!
Vem da psicogenética e alta luta
Do feixe de moléculas nervosas,
Que, em desintegrações maravilhosas,
Delibera, e depois, quer e executa!
Vem do encéfalo absconso que a constringe,
Chega em seguida às cordas do laringe,
Tísica, tênue, mínima, raquítica ...
Quebra a força centrípeta que a amarra,
Mas, de repente, e quase morta, esbarra
No mulambo da língua paralítica
A fome e o amor
Fome! E, na ânsia voraz que, ávida, aumenta,
Receando outras mandíbulas a esbangem,
Os dentes antropófagos que rangem,
Antes da refeição sanguinolenta!
Amor! E a satiríasis sedenta,
Rugindo, enquanto as almas se confrangem,
Todas as danações sexuais que abrangem
A apolínica besta famulenta!
Ambos assim, tragando a ambiência vasta,
No desembestamento que os arrasta,
Superexcitadíssimos, os dois
Representam, no ardor dos seus assomos
A alegoria do que outrora fomos
E a imagem bronca do que inda hoje sois!
A floresta
Em vão com o mundo da floresta privas!...
- Todas as hermenêuticas sondagens,
Ante o hieróglifo e o enigma das folhagens,
São absolutamente negativas!
Araucárias, traçando arcos de ogivas,
Bracejamentos de álamos selvagens,
Como um convite para estranhas viagens,
Tornam todas as almas pensativas!
Há uma força vencida nesse mundo!
Todo o organismo florestal profundo
É dor viva, trancada num disfarce...
Vivem só, nele, os elementos broncos,
- As ambições que se fizeram troncos,
Porque nunca puderam realizar-se!
Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te
espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu
cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua
chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!
A idéia
De onde ela vem?! De que matéria bruta
Vem essa luz que sobre as nebulosas
Cai de incógnitas criptas misteriosas
Como as estalactites duma gruta?!
Vem da psicogenética e alta luta
Do feixe de moléculas nervosas,
Que, em desintegrações maravilhosas,
Delibera, e depois, quer e executa!
Vem do encéfalo absconso que a constringe,
Chega em seguida às cordas do laringe,
Tísica, tênue, mínima, raquítica ...
Quebra a força centrípeta que a amarra,
Mas, de repente, e quase morta, esbarra
No mulambo da língua paralítica
A fome e o amor
Fome! E, na ânsia voraz que, ávida, aumenta,
Receando outras mandíbulas a esbangem,
Os dentes antropófagos que rangem,
Antes da refeição sanguinolenta!
Amor! E a satiríasis sedenta,
Rugindo, enquanto as almas se confrangem,
Todas as danações sexuais que abrangem
A apolínica besta famulenta!
Ambos assim, tragando a ambiência vasta,
No desembestamento que os arrasta,
Superexcitadíssimos, os dois
Representam, no ardor dos seus assomos
A alegoria do que outrora fomos
E a imagem bronca do que inda hoje sois!
A floresta
Em vão com o mundo da floresta privas!...
- Todas as hermenêuticas sondagens,
Ante o hieróglifo e o enigma das folhagens,
São absolutamente negativas!
Araucárias, traçando arcos de ogivas,
Bracejamentos de álamos selvagens,
Como um convite para estranhas viagens,
Tornam todas as almas pensativas!
Há uma força vencida nesse mundo!
Todo o organismo florestal profundo
É dor viva, trancada num disfarce...
Vivem só, nele, os elementos broncos,
- As ambições que se fizeram troncos,
Porque nunca puderam realizar-se!
terça-feira, 5 de junho de 2012
Arnaldo Antunes
Ávida

O seu olhar

Estamos sob o mesmo teto
estamos sob o mesmo teto
secreto
onde o sol indesejável é barrado
eu e você
sob o mesmo nós
dois, sóis
sob o mesmo pôr
(o enigma do amor)
do sol
onde todo contorno finda
estamos
sob a mesma pálpebra
agora
já e ainda
intactos de aurora.
Os buracos do espelho
o buraco do espelho está fechado
agora eu tenho que ficar aqui
com um olho aberto, outro acordado
no lado de lá onde eu caí
pro lado de cá não tem acesso
mesmo que me chamem pelo nome
mesmo que admitam meu regresso
toda vez que eu vou a porta some
a janela some na parede
a palavra de água se dissolve
na palavra sede, a boca cede
antes de falar, e não se ouve
já tentei dormir a noite inteira
quatro, cinco, seis da madrugada
vou ficar ali nessa cadeira
uma orelha alerta, outra ligada
o buraco do espelho está fechado
agora eu tenho que ficar agora
fui pelo abandono abandonado
aqui dentro do lado de fora
O seu olhar
Estamos sob o mesmo teto
estamos sob o mesmo teto
secreto
onde o sol indesejável é barrado
eu e você
sob o mesmo nós
dois, sóis
sob o mesmo pôr
(o enigma do amor)
do sol
onde todo contorno finda
estamos
sob a mesma pálpebra
agora
já e ainda
intactos de aurora.
Os buracos do espelho
o buraco do espelho está fechado
agora eu tenho que ficar aqui
com um olho aberto, outro acordado
no lado de lá onde eu caí
pro lado de cá não tem acesso
mesmo que me chamem pelo nome
mesmo que admitam meu regresso
toda vez que eu vou a porta some
a janela some na parede
a palavra de água se dissolve
na palavra sede, a boca cede
antes de falar, e não se ouve
já tentei dormir a noite inteira
quatro, cinco, seis da madrugada
vou ficar ali nessa cadeira
uma orelha alerta, outra ligada
o buraco do espelho está fechado
agora eu tenho que ficar agora
fui pelo abandono abandonado
aqui dentro do lado de fora
sábado, 2 de junho de 2012
Nicolas Behr
Receita
Ingredientes
2 conflitos de gerações
4 esperanças perdidas
3 litros de sangue fervido
5 sonhos eróticos
2 canções do beatles
Modo de preparar
dissolva os sonhos eróticos
nos 2 litros de sangue fervido
e deixe gelar seu coração
leve a mistura ao fogo
adicionando dois conflitos
de gerações às esperanças
perdidas
2 conflitos de gerações
4 esperanças perdidas
3 litros de sangue fervido
5 sonhos eróticos
2 canções do beatles
Modo de preparar
dissolva os sonhos eróticos
nos 2 litros de sangue fervido
e deixe gelar seu coração
leve a mistura ao fogo
adicionando dois conflitos
de gerações às esperanças
perdidas
corte tudo em pedacinhos
e repita com as canções dos beatles
o mesmo processo usado com os
sonhos eróticos mas desta vez
deixe ferver um pouco mais e
mexa até dissolver
parte do sangue pode ser
substituído por suco de
gorselha mas os resultados
não serão os mesmos
sirva o poema simples ou
e repita com as canções dos beatles
o mesmo processo usado com os
sonhos eróticos mas desta vez
deixe ferver um pouco mais e
mexa até dissolver
parte do sangue pode ser
substituído por suco de
gorselha mas os resultados
não serão os mesmos
sirva o poema simples ou
com ilusões
Poesia F. C.
aos 23 anos do primeiro tempo
a vida falha
numa jogada sensacional
Palácio da Justiça
bicho,
esse palácio
é a maior
cascata!
Assim era o restaurante
da madrinha, em Cocalzinho de Goiás
no restaurante da madrinha,
em cocalzinho de Goiás,
a melhor mesa para se almoçar
era a primeira à esquerda
de quem entrava pela rua
pois era maior e ficava perto da janela,
de onde se via o movimento,
ou a do canto direito,
perto do fogão a lenha,
de quem entrava pelos
fundos, onde tinha
um velho pé de mamão
que nasceu no pé do muro
no restaurante da madrinha,
em Cocalzinho de Goiás,
tinha uma cancela na porta,
onde, todas as sextas-feiras,
ela colocava um ramo de arruda para chamar
os fregueses, espantar os maus espíritos
e as moscas
Ivo Barroso
É preciso
É preciso ser duro
como a pedra que parte
como a parte da pedra
que penetra a parede
e a parte
Como a rede que não vaza
como o vaso que não quebra
como a pedra que fende
o paredão da casa
E é preciso ser fraco
é preciso ter siso
e simulacro. É preciso
todos os dias vencer
os deuses pigmeus/golias
É preciso ter cara
e ter coragem
É cada vez mais raro
quem assim reage
É preciso ser duro
como o murro
como o muro
e é preciso ser doce
como se anteparo
de vidro
o muro fosse
É cada vez mais raro
ser duro e doce
cada vez mais torpe
ser apenas duro
cada vez mais nulo
ser apenas doce
cada vez mais duro
ser o muro e a nuvem
como se um só fossem.
Pão nosso
Amanhã nosso pão terá pedra — e o comeremos.
Ao parti-lo, amanhã, nosso pão será de pedra
e o comeremos.
Ao se partir em dois, o pão que a nossa fome espera,
será pedra,
e o comeremos.
Pois aceitar é o que estamos
fazendo neste dia, pois aceitar
é o que viemos fazendo nos dias
que antecederam mais um, que é este dia;
pois aceitar é o que vamos fazendo sem sentir
como quem come a pedra em vez do pão
pensando o pão.
Partindo-o, partiremos um seixo apenas.
Um seixo, afinal, que em vez de atirá-lo
— comeremos.
Poema para meu pai
Meu pai morreu longe de mim
(eu é que estava longe dele).
Tantos anos se passaram
e ainda não lhe vi a sepultura.
Continuo longe. Mas sua presença
me sacode como um choque elétrico,
uma bebida forte que me arde
por dentro.
Está vivo nos meus dedos,
nos cabelos ralos
— a nuca, dá arrepios de se ver.
Está cada vez mais perto de mim
(eu é que estou mais perto dele).
Canto nupcial
Agora que estás amadurecida para o amor
e em teu sexo a peregrinação das luas se sucede,
escuta, Amada, o meu canto nupcial.
De tua fronte penderão corimbos,
anêmonas e as últimas pervincas dilatadas em maio;
teus seios recenderão a malvas adormecidas
no sereno das madrugadas suspensas;
uma orquídea equatorial, grande como um símbolo,
cingirás ao ventre
e, em teu sexo nu, a flor estonteante
de tua própria pureza conservada.
Quero-te assim — floral, assim meio bárbara,
que o nosso amor contém um pouco da força dionisíaca
da terra;
e teu ventre redondo — abrigo de sóis —
palpita na esperança genital da espécie.
No chão,
tomando-te os cabelos, ansiosa de meu amor de esposo,
gritarás aos caules que nos cercam,
para as frondes que nos cobrem,
que propício é o tempo de tua flor esmagada
se tornar em fruto.
E rolaremos nos rituais sagrados da progênie:
teus seios — como duas luas gêmeas — crescerão
em suas fases;
teu ventre, penetrado de vida, se distenderá
na lenteza das horas
e o próprio chão em torno se gretará pelas raízes
que emergem sôfregas de ser.
É preciso ser duro
como a pedra que parte
como a parte da pedra
que penetra a parede
e a parte
Como a rede que não vaza
como o vaso que não quebra
como a pedra que fende
o paredão da casa
E é preciso ser fraco
é preciso ter siso
e simulacro. É preciso
todos os dias vencer
os deuses pigmeus/golias
É preciso ter cara
e ter coragem
É cada vez mais raro
quem assim reage
É preciso ser duro
como o murro
como o muro
e é preciso ser doce
como se anteparo
de vidro
o muro fosse
É cada vez mais raro
ser duro e doce
cada vez mais torpe
ser apenas duro
cada vez mais nulo
ser apenas doce
cada vez mais duro
ser o muro e a nuvem
como se um só fossem.
Pão nosso
Amanhã nosso pão terá pedra — e o comeremos.
Ao parti-lo, amanhã, nosso pão será de pedra
e o comeremos.
Ao se partir em dois, o pão que a nossa fome espera,
será pedra,
e o comeremos.
Pois aceitar é o que estamos
fazendo neste dia, pois aceitar
é o que viemos fazendo nos dias
que antecederam mais um, que é este dia;
pois aceitar é o que vamos fazendo sem sentir
como quem come a pedra em vez do pão
pensando o pão.
Partindo-o, partiremos um seixo apenas.
Um seixo, afinal, que em vez de atirá-lo
— comeremos.
Poema para meu pai
Meu pai morreu longe de mim
(eu é que estava longe dele).
Tantos anos se passaram
e ainda não lhe vi a sepultura.
Continuo longe. Mas sua presença
me sacode como um choque elétrico,
uma bebida forte que me arde
por dentro.
Está vivo nos meus dedos,
nos cabelos ralos
— a nuca, dá arrepios de se ver.
Está cada vez mais perto de mim
(eu é que estou mais perto dele).
Canto nupcial
Agora que estás amadurecida para o amor
e em teu sexo a peregrinação das luas se sucede,
escuta, Amada, o meu canto nupcial.
De tua fronte penderão corimbos,
anêmonas e as últimas pervincas dilatadas em maio;
teus seios recenderão a malvas adormecidas
no sereno das madrugadas suspensas;
uma orquídea equatorial, grande como um símbolo,
cingirás ao ventre
e, em teu sexo nu, a flor estonteante
de tua própria pureza conservada.
Quero-te assim — floral, assim meio bárbara,
que o nosso amor contém um pouco da força dionisíaca
da terra;
e teu ventre redondo — abrigo de sóis —
palpita na esperança genital da espécie.
No chão,
tomando-te os cabelos, ansiosa de meu amor de esposo,
gritarás aos caules que nos cercam,
para as frondes que nos cobrem,
que propício é o tempo de tua flor esmagada
se tornar em fruto.
E rolaremos nos rituais sagrados da progênie:
teus seios — como duas luas gêmeas — crescerão
em suas fases;
teu ventre, penetrado de vida, se distenderá
na lenteza das horas
e o próprio chão em torno se gretará pelas raízes
que emergem sôfregas de ser.
sexta-feira, 1 de junho de 2012
Carl Sandburg
Dunas
Que vemos aqui, entre as dunas de areia batidas
de luar, sozinhos com os nossos pensamentos, Bill,
sozinhos com os nossos sonhos, Bill, tão leves como
os véus que adejam sobre a cabeça das mulheres
que dançam,
sozinhos com urna imagem, uma imagem a seguir
a outra, de todos os mortos,
os mortos mais numerosos que os grãos de areia
amontoados um a um aqui, sob o luar,
amontoados no horizonte e com a forma que as mãos
do vento lhes querem dar,
que vemos aqui, Bill, além daquilo que desespera
os sábios,
além daquilo que faz chorar os poetas, que faz com
que os soldados se lancem para a frente e percam
a vida à luz do sol: que será, Bill?
A Grade
Agora, a mansão à beira do lago já está
concluída, e os trabalhadores estão
começando a grade.
São barras de ferro com pontas de aço, capazes
de tirar a vida de qualquer um que se
arrisque sobre elas.
Como grade, é uma obra-prima e impedirá a
entrada de todos os famintos e vagabundos
e de todas as crianças vadias à procura de
um lugar para brincar.
Entre as barras e sobre as pontas de aço nada
passará, exceto a Morte, a Chuva e o Dia de
Amanhã.
Rápido
Viajo de rápido, num dos melhores comboios do país.
Lançados através da pradaria, da névoa azul, no ar escuro,
correm quinze carruagens com mil viajantes.
Todas estas carruagens serão, um dia, montes de ferrugem;
homens e mulheres que riem
no vagão-restaurante, nas carruagens-camas, hão-de acabar em pó.
No salão dos fumadores pergunto a um homem qual o seu destino.
«Omaha», responde.
Que vemos aqui, entre as dunas de areia batidas
de luar, sozinhos com os nossos pensamentos, Bill,
sozinhos com os nossos sonhos, Bill, tão leves como
os véus que adejam sobre a cabeça das mulheres
que dançam,
sozinhos com urna imagem, uma imagem a seguir
a outra, de todos os mortos,
os mortos mais numerosos que os grãos de areia
amontoados um a um aqui, sob o luar,
amontoados no horizonte e com a forma que as mãos
do vento lhes querem dar,
que vemos aqui, Bill, além daquilo que desespera
os sábios,
além daquilo que faz chorar os poetas, que faz com
que os soldados se lancem para a frente e percam
a vida à luz do sol: que será, Bill?
A Grade
Agora, a mansão à beira do lago já está
concluída, e os trabalhadores estão
começando a grade.
São barras de ferro com pontas de aço, capazes
de tirar a vida de qualquer um que se
arrisque sobre elas.
Como grade, é uma obra-prima e impedirá a
entrada de todos os famintos e vagabundos
e de todas as crianças vadias à procura de
um lugar para brincar.
Entre as barras e sobre as pontas de aço nada
passará, exceto a Morte, a Chuva e o Dia de
Amanhã.
Rápido
Viajo de rápido, num dos melhores comboios do país.
Lançados através da pradaria, da névoa azul, no ar escuro,
correm quinze carruagens com mil viajantes.
Todas estas carruagens serão, um dia, montes de ferrugem;
homens e mulheres que riem
no vagão-restaurante, nas carruagens-camas, hão-de acabar em pó.
No salão dos fumadores pergunto a um homem qual o seu destino.
«Omaha», responde.
Vi
um homem famoso comer sopa.
Vi que levava à boca o gorduroso caldo
com uma colher
Todos os dias o seu nome aparecia nos jornais
em grandes parangonas
e milhares de pessoas era dele que falavam.
Mas quando o vi,
estava sentado, com o queixo enfiado no prato,
e levava a sopa à boca
Com uma colher.
Vi que levava à boca o gorduroso caldo
com uma colher
Todos os dias o seu nome aparecia nos jornais
em grandes parangonas
e milhares de pessoas era dele que falavam.
Mas quando o vi,
estava sentado, com o queixo enfiado no prato,
e levava a sopa à boca
Com uma colher.
Betty Vidigal
Vestido
O que escondo no bolso do vestido
não é para ser visto por qualquer
um que ambicione compreender
ou que às vezes cobice esta mulher.
O que guardo no bolso do vestido
e que escondo assim, ciumentamente,
é como um terço de vidro
de contas incandescentes
que se toca com as pontas dos dedos
nos momentos de perigo,
para afastar o medo;
é como um rosário antigo
que um fiel fecha na palma da mão
para fazer fugir a tentação
quando um terremoto lhe ameaça a fé:
Jesus, Maria, José,
que meu micro-vestido esvoaçante
não vos ofenda em vão os olhos castos;
que minhas sandálias de prata
não me falhem nos instantes de cansaço;
que a tiara de princesa que não uso
não se perca entre os dedos dos incautos,
os sonhos dos reclusos;
que eu nunca quebre um salto;
que não me falta jamais um parafuso
(não que se note);
que com sorte, cautela e canja
eu um dia me transforme numa anja
e lá do alto
repique os sinos para congregar os loucos, os aflitos,
os que vos chamam aos gritos,
os que nunca têm respostas.
Mas que mantenha nos bolsos,
mas que mantenha nos olhos
um breve contra os olhados
bons e maus;
que continuem assim os meus vestidos:
precipitados nas costas,
bem curtos, desaforados,
mal-comportados, bonitos.
O que inda escondo nos bolsos
e murmuro nos instantes adversos
é um verso medieval
escrito às pressas
em dialeto provençal, é claro,
por um bardo meio analfabeto
com caracteres rabiscados, inseguros;
é uma bola de cristal
que não deixa prever o futuro;
é uma invocação, um cântico,
escapulário,
um patuá romântico
cheio de pétalas azuis,
– para me proteger das bruxas que não fui;
dos passes
que jamais permiti que me encantassem;
da maldição
que não veio dos meus sins, mas sim de um não
– de um único não,
uma bobagem,
que não daria jamais
um furo de reportagem.
Pitangas
Era uma febre, um delírio,
Uma mandinga bem feita,
cama com cheiro de lírio.
Era um delírio, uma febre,
amor que não se endireita,
quebranto que ninguém quebra,
tremedeira de maleita,
uma mulher e um ébrio
de amor que não toma jeito.
E ela, que não se emenda?
Meus dedos fazendo renda
com os pêlos do seu peito;
o coração que se escuta
pelo quarteirão inteiro;
pitangas no travesseiro,
cama com cheiro de fruta.
O amor dos outros
O amor dos outros
é indiferente.
Só o da gente
é especial,
fosforescente,
brilha no escuro.
O amor dos outros
é tão pequeno,
nem vale a pena
pichar o muro.
Ninguém entende
o amor alheio;
não é bonito
e não é feio.
O amor dos outros
é tão efêmero!
Estão amando?
Fazendo gênero?
O amor dos outros
é muito pouco:
só o da gente,
direito ou torto,
alegre ou triste,
sereno ou louco,
lascivo ou puro,
céu ou inferno
— só o da gente
será eterno.
Olha pro rosto
do amor alheio:
são só dois olhos,
nariz no meio,
cadê a boca?
Olha pra cara
do amor da gente:
que coisa louca!
O que escondo no bolso do vestido
não é para ser visto por qualquer
um que ambicione compreender
ou que às vezes cobice esta mulher.
O que guardo no bolso do vestido
e que escondo assim, ciumentamente,
é como um terço de vidro
de contas incandescentes
que se toca com as pontas dos dedos
nos momentos de perigo,
para afastar o medo;
é como um rosário antigo
que um fiel fecha na palma da mão
para fazer fugir a tentação
quando um terremoto lhe ameaça a fé:
Jesus, Maria, José,
que meu micro-vestido esvoaçante
não vos ofenda em vão os olhos castos;
que minhas sandálias de prata
não me falhem nos instantes de cansaço;
que a tiara de princesa que não uso
não se perca entre os dedos dos incautos,
os sonhos dos reclusos;
que eu nunca quebre um salto;
que não me falta jamais um parafuso
(não que se note);
que com sorte, cautela e canja
eu um dia me transforme numa anja
e lá do alto
repique os sinos para congregar os loucos, os aflitos,
os que vos chamam aos gritos,
os que nunca têm respostas.
Mas que mantenha nos bolsos,
mas que mantenha nos olhos
um breve contra os olhados
bons e maus;
que continuem assim os meus vestidos:
precipitados nas costas,
bem curtos, desaforados,
mal-comportados, bonitos.
O que inda escondo nos bolsos
e murmuro nos instantes adversos
é um verso medieval
escrito às pressas
em dialeto provençal, é claro,
por um bardo meio analfabeto
com caracteres rabiscados, inseguros;
é uma bola de cristal
que não deixa prever o futuro;
é uma invocação, um cântico,
escapulário,
um patuá romântico
cheio de pétalas azuis,
– para me proteger das bruxas que não fui;
dos passes
que jamais permiti que me encantassem;
da maldição
que não veio dos meus sins, mas sim de um não
– de um único não,
uma bobagem,
que não daria jamais
um furo de reportagem.
Pitangas
Era uma febre, um delírio,
Uma mandinga bem feita,
cama com cheiro de lírio.
Era um delírio, uma febre,
amor que não se endireita,
quebranto que ninguém quebra,
tremedeira de maleita,
uma mulher e um ébrio
de amor que não toma jeito.
E ela, que não se emenda?
Meus dedos fazendo renda
com os pêlos do seu peito;
o coração que se escuta
pelo quarteirão inteiro;
pitangas no travesseiro,
cama com cheiro de fruta.
O amor dos outros
O amor dos outros
é indiferente.
Só o da gente
é especial,
fosforescente,
brilha no escuro.
O amor dos outros
é tão pequeno,
nem vale a pena
pichar o muro.
Ninguém entende
o amor alheio;
não é bonito
e não é feio.
O amor dos outros
é tão efêmero!
Estão amando?
Fazendo gênero?
O amor dos outros
é muito pouco:
só o da gente,
direito ou torto,
alegre ou triste,
sereno ou louco,
lascivo ou puro,
céu ou inferno
— só o da gente
será eterno.
Olha pro rosto
do amor alheio:
são só dois olhos,
nariz no meio,
cadê a boca?
Olha pra cara
do amor da gente:
que coisa louca!
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