Peliano costuma brincar que a poes-ia e foram os poetas que a trouxeram de volta! Uma de suas invenções mais ricas é conseguir por em palavras lirismos maravilhosos, aqueles que percebemos de repente e temos a impressão que não vamos conseguir exprimi-los. Exemplos: de Manoel de Barros -"Deixamos Bernardo de manhã em sua sepultura. De tarde o deserto já estava em nós"; de Ernesto Sabato - "Sólo quienes sean capaces de encarnar la utopía serán aptos para ... recuperar cuanto de humanidad hayamos perdido"; de Thiago de Mello - "Faz escuro mas eu canto"; de Helen Keller - "Nunca se deve engatinhar quando o impulso é voar"; de Millôr Fernandes - "Sim, do mundo nada se leva. Mas é formidável ter uma porção de coisas a que dizer adeus". É como teria exclamado Michelangelo que não fora ele quem esculpiu Davi, pois este já estava pronto dentro da pedra, Michelangelo apenas tirara-o de lá. Então, para Peliano, o lirismo é quando nos abraça o mundo fora de nós, cochicha seu mistério em nossos ouvidos e o pegamos com as mãos da poesia em seus muitos dedos de expressão.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Olga Savary



DAVID


Não sendo bicho nem deus
nem da raiz tendo a força
ou a eternidade da pedra,
o poeta nas palavras
põe essa força de nada:
sua funda é o poema.

CAIÇUÇÁUA


Sempre o verão
e algum inverno
nesta cidade sem outono
e pouca primavera:

tudo isto te vê entrar
em mim todo inteiro
e eu em fogo vou bebendo
todos os teus rios

com uma insaciável sede
que te segue às estações
no dia aceso.

Em tua água sim está meu tempo,
meu começo. E depois nem poder ordenar:
te acalma, minha paixão.

CONSTRUÇÃO


Eles são donos do mundo
e não sabem disso.
Daqui os vejo
bem no alto contra o espaço,
eles vem e vão
pássaros sérios
deslocando nuvens
Daqui os vejo criando
essa explosão precisa
de ferro cimento e paciência
— agora um bem pensado
esqueleto de superpostas vigas.
E a gente fica cismando como é belo
o que eles criam e o simples permanecer
de um operário no alto da sua construção.
O pequeno quadrado (que será elevador)
desce e sobe por ossos de madeira
do poço por eles trabalhado.
Eles constróem o mundo
eles divididos mas tão fortes
eles são o mundo
e não se importam.

Eles levantam os castelos de agora
castelões provisórios no alto de suas torres.

IRARUCA


Destino é o nome que damos
à nossa comodidade,
à covardia do não-risco,
do não-pegar-as-coisas-com-os-dentes.

Quanto a mim,
pátria é o que eu chamo poesia
e todas as sensualidades: vida.

Amor é o que eu chamo mar,
é o que eu chamo água.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Nicanor Parra



LA MONTAÑA RUSA

Durante medio siglo
La poesía fue
El paraíso del tonto solemne.
Hasta que vine yo
Y me instalé con mi montaña rusa.

Suban, si les parece.
Claro que yo no respondo si bajan
Echando sangre por boca y narices.



CRONOS

En Santiago de Chile
Los
     días
           son
               interminablemente
                                          largos:
Varias eternidades en un día.

Nos desplazamos a lomo de mula
Como los vendedores de cochayuyo:
Se bosteza. Se vuelve a bostezar.

Sin embargo las semanas son cortas
Los meses pasan a toda carrera
Ylosañosparecequevolaran.



PADRE NUESTRO

Padre nuestro que estás en el cielo
Lleno de toda clase de problemas
Con el ceño fruncido
Como si fueras un hombre vulgar y corriente
No pienses más en nosotros.

Comprendemos que sufres
Porque no puedes arreglar las cosas.
Sabemos que el Demónio no te deja tranquilo
Desconstruyendo lo que tú construyes.

Él se ríe de ti
Pero nosotros lloramos contigo:
No te preocupes de sus risas diabólicas.

Padre nuestro que estás donde estás
Rodeado de ángeles desleales
Sinceramente: no sufras más por nosotros
Tienes que darte cuenta
De que los dioses no son infalibles
Y que nosotros perdonamos todo



CREO EN UN + ALLÁ

Creo en un + allá
donde se cumplen todos los ideales
amistad
igualdad
fraternidad
excepción hecha de la libertad
ésa no se consigue en ninguna parte
somos esclavos x naturaleza

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Solano Trindade



Gravata colorida

Quando eu tiver bastante pão para meus filhos
para minha amada
pros meus amigos

e pros meus vizinhos quando eu tiver livros para ler
então eu comprarei uma gravata colorida larga

bonita
e darei um laço perfeito e ficarei mostrando
a minha gravata colorida a todos os que gostam de gente engravatada...


Navio Negreiro

Lá vem o navio negreiro
Lá vem ele sobre o mar
Lá vem o navio negreiro 

Vamos minha gente olhar...
Lá vem o navio negreiro 
Por água brasiliana
Lá vem o navio negreiro 

Trazendo carga humana...
Lá vem o navio negreiro 
Cheio de melancolia
Lá vem o navio negreiro 

Cheinho de poesia...
Lá vem o navio negreiro 
Com carga de resistência 
Lá vem o navio negreiro 
Cheinho de inteligência...

Velho atabaque

Velho atabaque
quantas coisas você falou para mim 

quantos poemas você anunciou
Quantas poesias você me inspirou 
às vezes cheio de banzo
às vezes com alegria
diamba rítmica
cachaça melódica
repetição telúrica
maracatu triste
mas gostoso como mulher...

Triste maracatu
escravo vestido de rei 

loanda distante do corpo 
e pertinho da alma 
negras sem desodorante 
com cheiro gostoso
de mulher africana

zabumba batucando
na alma de eu...

Velho atabaque madeira de lei
couro de animais
mãos negras lhe batem

e o seu choro é música 
e com sua música dançam
os homens inspirados de luxúria
e procriação
Velho atabaque
gerador de humanidade...

Bolinhas de gude
Jorginho foi preso
quando jogava bolinha de gude
não usou arma de fogo
nem fez brilhar sua navalha
Jorginho era criança igual às outras
queria brincar
O brinquedo poderia ser um revólver
uma navalha
um pandeiro
quem sabe um cavalinho de pau
Jorginho queria brincar
Jorginho viu um filme americano
no outro dia
fez uma quadrilha de mentirinha
sempre brincando
a quadrilha foi ficando de verdade
Jorginho ficou grande como Pelé
todos os dias saía no jornal...
Televisionado
só não deu autógrafo
porque estava algemado
 
Ele era o facínora
que brincava com bolinhas de gude.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Margarida Patriota



Relíquia


De nossa relva guardo amostra
Prensa entre as folhas
Das Folhas de Relva
De Walt Whitman

Guardo entre folhas que o tempo amarela
As traças roem, os dedos vincam
A fúria rasga, o pranto encrespa
O sangue mancha, e, sim, abrigam
Ponta da grama que nos foi ermida


Superação


Foi-se o amor
Que o trouxe vivo até ali

No som da sala
Noel consola, mas não supre

Foi-se o viço
Que o amor trouxe até ali

No som da sala
Noel não supre nem consola

Torna a amar
para não ir morto até la'


Truísmos


O sol aquece aragens
Que nos refrescam

As ervas daninhas danificam
A natureza mata

A tecnologia é amiga da onça
O laboratório salva

Não carece de tatuagem
A alma impressa

Em livro fechado não entra mosca
De livro aberto, sai


Lástima


Espano a pena em sua lapela
Com o trivial gesto de quem espana
Felpa ou paina

Com um gesto largo
de maestro de orquestra
Recolho no voo o floco diáfano

Debelo a dúvida que pairava

Brigarmos é realmente uma pena
Não felpa ou paina em minha palma

domingo, 27 de agosto de 2017

Degrau por degrau

Primeiro romance de José Carlos Peliano




Sinopse de Degrau por degrau, de José Carlos Peliano, Editora Kazuá, 2017


O pano de fundo é a história real de um ataque sexual mal sucedido de três rapazes à menina mais conhecida da escola. Invadem sua casa e acabam provocando sua queda escada abaixo, degrau por degrau, causando-lhe paraplegia e lesão cerebral irreversível.

A narrativa é contada a partir da figura de Tino, personagem principal, nada convencional, sertanejo de poucas palavras, com uma característica bastante peculiar, ele é um homem que sabe matar. Um matador, mas com critérios próprios. A trama passa a ser centrada e desenvolvida em sua vida, os casos que escolhe assumir e a maneira com a qual resolve cada um deles.

Quando menos se espera o leitor já está envolvido na trama criada e em meio a todos os personagens que a compõem, ávido por descobrir o rumo e o desfecho desse incrível suspense.



PREFÁCIO

Coube-me a honra de escrever o prefácio de Degrau por Degrau, a mais recente obra de José Carlos Peliano.
Economista, professor e pesquisador, autor de poesias e contos, o premiado escritor nos brinda agora com este romance, cuja narrativa, já nas primeiras linhas, capta a atenção do leitor, quer pela linguagem fluida, quer pelo próprio enredo, que traz à discussão um tema atual e presente em nosso quotidiano.
Neste romance, um incidente trágico e a certeza da impunidade fazem com que uma família desesperada busque por reparação e enverede por um caminho sem volta. Intriga, vingança, matadores de aluguel, aliados ao suspense que permeia toda a narrativa, são os ingredientes que dão vida à trama e aos personagens e conduzem o leitor a um desfecho inesperado.
Mais do que uma saborosa narrativa tecida pelas mãos do poeta, na qual a realidade humana e social foi tão bem retratada, Degrau por Degrau levará o leitor à reflexão sobre as mazelas da sociedade em que vivemos, na qual o poder econômico predomina cada vez mais sobre a ética e a justiça, na mesma medida em que o machismo, o preconceito e a intolerância sufocam diariamente a voz de um número crescente de vítimas anônimas.
Feito este prefácio, deixo o leitor entregue ao prazer da leitura,

Denise Rossato Agostinetti



quinta-feira, 10 de agosto de 2017

William Carlos Williams



Visão

A lua
ovoide
que na prensa negra
senta
abraçando seus joelhos,
se foi com pensamentos
acima
da cidade anelada.

As novas nuvens

A manhã quando eu primeiro te amei
tinha uma qualidade de delicada divisão a respeito e
uma leveza e uma luz repleta de
pequenas nuvens todas crescendo sobre o
chão que as criou, uma luz de
palavras num céu de papel, cada uma um significado
e todas juntas outro significado. Foi uma fala
quieta, tranquila mas reminiscente
e de preces — com uma perturbação
da espera. Sim! uma página grudada
por tudo aquilo não era, um significado mais
que significado do que o do texto cujas
pontas separadas eram as pontas do céu.

Uma mulher negra

levando um maço de calêndulas
enroladas
em um jornal velho:
Ela as leva verticais,
sem chapéu,
o volume
das suas coxas
fazendo-a gingar
enquanto anda
olhando para
a vitrine pela qual ela passa
em seu caminho.
O que será ela
se não uma embaixadora
de um outro mundo
um mundo repleto de calêndulas
de dois tons
que ela apresenta
sem saber o que fazer
além
de caminhar pelas ruas
levando as flores bem retas
como uma tocha
na manhã tão cedo.

A volta ao trabalho

Passeando suas
saias como galeões do sexo,
duas auxiliares de escritório
balançam desigualmente
juntas
descendo a larga escada,
uma
(conforme eu lentamente
sigo sob o vento alísio
do meu encanto)
suavemente
batendo nas coxas.