Peliano costuma brincar que a poes-ia e foram os poetas que a trouxeram de volta! Uma de suas invenções mais ricas é conseguir por em palavras lirismos maravilhosos, aqueles que percebemos de repente e temos a impressão que não vamos conseguir exprimi-los. Exemplos: de Manoel de Barros -"Deixamos Bernardo de manhã em sua sepultura. De tarde o deserto já estava em nós"; de Ernesto Sabato - "Sólo quienes sean capaces de encarnar la utopía serán aptos para ... recuperar cuanto de humanidad hayamos perdido"; de Thiago de Mello - "Faz escuro mas eu canto"; de Helen Keller - "Nunca se deve engatinhar quando o impulso é voar"; de Millôr Fernandes - "Sim, do mundo nada se leva. Mas é formidável ter uma porção de coisas a que dizer adeus". É como teria exclamado Michelangelo que não fora ele quem esculpiu Davi, pois este já estava pronto dentro da pedra, Michelangelo apenas tirara-o de lá. Então, para Peliano, o lirismo é quando nos abraça o mundo fora de nós, cochicha seu mistério em nossos ouvidos e o pegamos com as mãos da poesia em seus muitos dedos de expressão.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Poema Limpo (1a parte)


à história não documentada
pelos conquistados, colonizados e aniquilados

José Carlos Peliano

Códigos, senhas, criptogramas, segredos, fora? Pô, Ema, limpo!
Limpoema, Ema, esqueça cada, todo e qualquer teorema,
só funcionam ao seguir a régua, o compasso, a mente do inventor
segundo os elementos, os termos e o conjunto dos postulados

O poema limpo não é só um, segue muito mais que um tema
foge de corolários, parâmetros, padrões e esquema
varrido de intrigas, preconceitos, injustiças, blasfêmias
recita cânticos a bichos, plantas, planetas, machos, fêmeas

Não está na farpa cruel envenenada enfiada fundo na pele
no rastro e pegadas mortais do câncer entre as vísceras
no poder ilegítimo, corrupto, picaresco, vão, podre
na mentira sórdida, hipócrita, etiquetada, mercantil

Doce no sabor e deleite do doce de batata doce
singelo no sorriso do bebê de braços abertos à alegria
amigo na mão dada ao caído e dolorido pela depressão indigesta
terno nos olhos amendoados de uma tarde sobre os trigais

O poema é limpo, mesmo que avariado, desconexo, incompreensível
estampado nos operários que saem da madrugada casa todas as manhãs
no desempregado perdido em meio a filas incontáveis atrás de trabalho
no preso trancafiado entre grades, cubículos, pobres injustiçados e condenados

O poema limpo é de Ema, pô, ela merece, ela é santa e um dilema
traz-me a lira, a inspiração, a métrica, o gozo e as trombetas
tira-me do sério, do entendimento e da vastidão da alma feminina
o poema é limpo se o poeta acha em seus versos a boca de Ema

Pô, Ema, limpo o poema de minhas dúvidas, incertezas e dissabores
dou-te a versão definitiva e derradeira como o último suspiro
em troca de me libertares de meu vício titânico de querer-te
chegar a ti desejo apenas pelo pouso do poema se revelando em minhas mãos

os arranha-céus, os viadutos, as autopistas estão no poema limpo
os shoppings, supermercados, fábricas, aeroportos e autódromos
as filas, guichês, salas de espera, pontos de ônibus, passarelas
os tributos, provas finais, vestibulares, inquéritos, cobranças

fora do poema limpo estão os que entulham e aviltam esse circo
vendaval supérfluo de ideias, projetos, obras e montagens sem limites
servidão compulsiva de gente com máquinas de somar nas cabeças
bolsos cheios de mãos ambiciosas e contas abarrotadas de lucros desmedidos

o poema limpo não contempla a fome que come os sem mesa posta
os emigrantes que fazem do mar suas moradas despejados por barcos afundados
inocentes e pobres de esperança e vida que se curvam a bombardeios sem nome
alvos dos que se lambuzam de poder e dinheiro pelo dinheiro e para o dinheiro

Pô, Ema, limpo o poema de degradações, destruições, desconstruções
lixeiras infernais de ambições e compulsões sem estômago e fígado
castelos, monumentos e tronos de bizarros fantasiados humanos
o poema só é lido pelas mulheres e homens libertos, lado a lado

O poema limpo será escrito por corações que batem no ritmo do sol
decorado e declamado por todas as noites braços dados à lua
em todos os quadrantes, horizontes, vales, cordilheiras e direções
para se dormir com estrelas, sonhar gerânios, acordar colibris

Pô, Ema, refazendo teu nome de trás para frente, ame! Pô, Ema, ame!
ame a ti, a mim a todos e ao poema limpo que que te inspiras a cada verso
a cada estrofe, a cada poeta, a cada flor nascida não sei onde no poema
para ofertar a quem dele se sinta rodeado por floradas de vários matizes

O amor está no poema limpo assim como os sabiás, as baleias, as borboletas
que a cada voo, nado, farfalhar, levam a natureza aos versos do poema limpo
onde o universo os compõem e reescreve nos planetas, meteoros e cometas
pelas mãos de Marie Curie, Galileu, Newton, Einstein e Clementina de Jesus

O poema limpo está no Operário em Construção de Vinícius de Moraes
na Construção de Chico Buarque, na fibra de Nise da Silveira
nos Retirantes de Cândido Portinari, nos curvas de Niemeyer
nos jardins de Burle Max, nas páginas de Clarice Lispector

O poema limpo não tem rédeas, gaiolas, coleiras, jaulas, prisões
sua mina verte água cristalina e abençoada pelo ventre da terra
dispensa legislativo, judiciário, executivo e eclesiástico
é o canto de liberdade de Zumbi dos Palmares, Tiradentes e Lampião

Pô, Ema, limpo? Só se limpo como tua imaculada e mundana presença
que faz de seus dons a imagem e semelhança da mulher e do homem
composta em cada berço, cama, casa, rua, cidade, país, continente
para porem a vida que se faz vida em contínuo movimento e poema

O poema limpo não é de ninguém, não requer face, nem texto, nem ritmo
ele se faz  a cada emoção que venha de dentro, do avesso do avesso
lá onde Freud e Jung foram e chegaram perto com versões diferentes
e Leonardo da Vinci captou pelo sorriso enigmático de Gioconda

Limpo o poema, Ema, ele não precisará mais ser escrito ou lido
estará contigo em cada um de nós a cada voo da imaginação e criação
a cada passo em direção ao porto amigo, sagradamente humano

onde todos se reconheçam em todos gente comum sem mais nem menos

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Bertold Brecht

Nada É Impossível De Mudar
Desconfiai do mais trivial,
na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente:
não aceiteis o que é de hábito
como coisa natural.
Pois em tempo de desordem sangrenta,
de confusão organizada,
de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada,
nada deve parecer natural.
Nada deve parecer impossível de mudar.


O Analfabeto Político
O pior analfabeto
é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala,
nem participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo da vida,
o preço do feijão, do peixe, da farinha,
do aluguel, do sapato e do remédio
dependem das decisões políticas.
O analfabeto político
é tão burro que se orgulha
e estufa o peito dizendo
que odeia a política.
Não sabe o imbecil que,
da sua ignorância política
nasce a prostituta, o menor abandonado
e o pior de todos os bandidos:
O político vigarista,
pilantra, corrupto e lacaio
das empresas nacionais e multinacionais.

Nossos inimigos dizem
Nossos inimigos dizem: a luta terminou.
Mas nós dizemos: ela começou.
Nossos inimigos dizem: a verdade está liquidada.
Mas nós sabemos: nós a sabemos ainda.
Nossos inimigos dizem: mesmo que ainda se conheça a verdade
ela não pode mais ser divulgada.
Mas nós a divulgaremos.
É a véspera da batalha.
É a preparação de nossos quadros.
É o estudo do plano de luta.
É o dia antes da queda de nossos inimigos.

Elogio Da Dialética
A injustiça avança hoje a passo firme.
Os tiranos fazem planos para dez mil anos.
O poder apregoa: as coisas
continuarão a ser como são.
Nenhuma voz além da dos que mandam.
E em todos os mercados proclama a exploração:
Isto é apenas o meu começo.
Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem:
Aquilo que nós queremos nunca mais o alcançaremos.
Quem ainda está vivo nunca diga: nunca.
O que é seguro não é seguro.
As coisas não continuarão a ser como são.
Depois de falarem os dominantes, falarão os dominados.
Quem pois ousa dizer: nunca?
De quem depende que a opressão prossiga? De nós.
De quem depende que ela acabe? De nós.
O que é esmagado, que se levante!
O que está perdido, lute!
O que sabe e o que se chegou, que há aí que o retenha?
Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã.
E nunca será: ainda hoje.


domingo, 6 de novembro de 2016

Portanto


que me importam
os desvãos da porta
se o que me importa
me aporta
e me comporta
é nela entrar por ti


domingo, 23 de outubro de 2016

Consonância


longo o desejo, curto o suspiro
um leva raízes atrás de raízes
outro perde raízes para sorvê-las

curto o desejo, longo o suspiro
um corta raízes entrelaçadas
outro delira enraizado de sabor

curto o desejo, curto o suspiro
um sem raízes de dedos compridos
outro espreme cheiro enraizado

longo o desejo, longo o suspiro
um leva o continente nas mãos
outro agarra o continente de vez




segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Mistério


por fim não há fim
fim e começo sem fim
passado, presente e futuro
não têm começo ou fim
juntam-se aqui e agora
olhos de aquis e agoras
pois agora me retiro daqui

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Eda Vitale

Paloma

Posada la paloma
en la pared blanquísima
blanca es y reverbera,
es de veras,
es verbo,
nos venga.
Blanca posada pide,
pasajera.
De pronto es negra.
Vuela.

Vértigo

Varada velocísima en
tu borde,
veraz de veras,
en vilo, en vela
virando hacia,
en ti guarecida,
guarnecida quiero seguir
imaginando cómo se amanece,
capaz de maullar
por las azoteas del frío
o del ardor final,
feliz naciendo
de la diaria muerte.

Residua

Corta la vida o larga, todo
lo que vivimos se reduce
a un gris residuo en la memoria.
De los antiguos viajes quedan
las enigmáticas monedas
que pretenden valores falsos.
De la memoria sólo sube
un vago polvo y un perfume.
¿Acaso sea la poesía?

Traducir

Alguien desborda,
al centro de la noche.
Ante un orden de palabras ajenas,
rebelde sometido,
ofrece el canto de toda su memoria,
las reviste de nueva piel
y con amor
las duerme en nueva lengua.
Apagada la luz,
el viento se pregona entre los árboles
y junto a la ventana hay frío
y la certeza de que todo paisaje
adentro se interrumpe
como frase que alcanza la madriguera
del terrible sentido.
No hay dispuesto
en el yermo
un benévolo guía.
Los pasos son a ciegas,
el cielo sin estrellas.
Y el pensamiento anticipa las fieras.