Peliano costuma brincar que a poes-ia e foram os poetas que a trouxeram de volta! Uma de suas invenções mais ricas é conseguir por em palavras lirismos maravilhosos, aqueles que percebemos de repente e temos a impressão que não vamos conseguir exprimi-los. Exemplos: de Manoel de Barros -"Deixamos Bernardo de manhã em sua sepultura. De tarde o deserto já estava em nós"; de Ernesto Sabato - "Sólo quienes sean capaces de encarnar la utopía serán aptos para ... recuperar cuanto de humanidad hayamos perdido"; de Thiago de Mello - "Faz escuro mas eu canto"; de Helen Keller - "Nunca se deve engatinhar quando o impulso é voar"; de Millôr Fernandes - "Sim, do mundo nada se leva. Mas é formidável ter uma porção de coisas a que dizer adeus". É como teria exclamado Michelangelo que não fora ele quem esculpiu Davi, pois este já estava pronto dentro da pedra, Michelangelo apenas tirara-o de lá. Então, para Peliano, o lirismo é quando nos abraça o mundo fora de nós, cochicha seu mistério em nossos ouvidos e o pegamos com as mãos da poesia em seus muitos dedos de expressão.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Poema do fim de ano

Tardança

                           josé carlos peliano

um pedaço de céu entra pela janela
o cansado azul do final de tarde
os olhos esgazeados do sol retirante
as árvores recolhidas e pacientes

o ar se esquiva do altiplano
as nuvens enxergam longe
o dia se despede e vai só
a primeira estrela demora-se a iluminar

telhados cobrem-se de cores
um espaçoso silêncio teima em ficar
sua foto na estante esbanja companhia
a porta está do mesmo jeito de ontem

meus ouvidos não cansam de procurar-lhe
os olhos de achar-lhe entre os minutos
as mãos secas para acomodar-lhe
trago a noite inteira para seguir-nos


terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Paulo Leminski

O que quer dizer  
O que quer dizer diz.
Não fica fazendo
O que, um dia, eu sempre fiz.
Não fica só querendo, querendo,
Coisa que eu nunca quis.
O que quer dizer, diz.
Só se dizendo num outro
O que, um disse, se disse,
Um dia, vai ser feliz.
................................
pelos caminhos que ando
um dia vai ser
só não sei quando
Razão de Ser  
Escrevo porque preciso,
Preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?  
Datilografando este texto


ler se lê nos dedos
não nos olhos
que os olhos são mais dados
a segredos

.........................

O amor, esse sufoco,
Agora há pouco era muito,
Agora, apenas um sopro
Ah, troço de louco,
Corações trocando rosas,
E socos.
.............................
o mar o azul o sábado
liguei pro céu
mas dava sempre ocupado  
A lua no cinema  
A lua foi ao cinema,
passava um filme engraçado,
a história de uma estrela
que não tinha namorado.
Não tinha porque era apenas
uma estrela bem pequena,
dessas que, quando apagam,
ninguém vai dizer, que pena!
Era uma estrela sozinha,
ninguém olhava pra ela,
e toda a luz que ela tinha
cabia numa janela.
A lua ficou tão triste
com aquela história de amor
que até hoje a lua insiste:
- Amanheça, por favor!



segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Marina Tsvietáieva


Abro as veias: irreprimível,
Irrecuperável, a vida vaza.
Ponham embaixo vasos e vasilhas!
Todas as vasilhas serão rasas,
Parcos os vasos.

Pelas bordas - à margem -
Para os veios negros da terra vazia,
Nutriz da vida, irrecuperável,
Irreprimível, vasa a poesia.

A Carta

Assim não se esperam cartas.
Assim se espera - a carta.
Pedaço de papel
Com uma borda
De cola. Dentro - uma palavra
Apenas. Isto é tudo.
Assim não se espera o bem.
Assim se espera - o fim:
Salva de soldados,
No peito - três quartos
De chumbo. Céu vermelho.
E só. Isto é tudo.
Felicidade? E a idade?
A flor - floriu.
Quadrado no pátio:
Bocas de fuzil.
(Quadrado da carta:
Tinta, tanto!)
Para o sono da morte
Viver é bastante.
Quadrado da carta.

À Vida

Não roubarás minha cor
Vermelha, de rio que estua.
Sou recusa: és caçador.
Persegues: eu sou a fuga.
Não dou minha alma cativa!
Colhido em pleno disparo,
Curva o pescoço o cavalo
Árabe -
E abre a veia da vida.

À Vida

Não colherás no meu rosto sem ruga
A cor, violenta correnteza.
És caçadora - eu não sou presa.
És a perseguição - eu sou a fuga.
Não colherás viva minha alma!
Acossado, em pleno tropel,
Arqueia o pescoço e rasga
A veia com os dentes - o corcel
Árabe
(Extraídos de Nova Antologia Russa Moderna, tradução de Augusto de Campos, Editora Brasiliense, São Paulo, 1985)

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

por falar em festas de fim de ano

festas

click na imagem para aumentar.

Nicanor Parra (Prêmio Cervantes de 2011)

Preguntas a la hora del té

Este señor desvaído parece
Una figura de un museo de cera;
Mira a través de los visillos rotos:
Qué vale más, ¿el oro o la belleza?,
¿Vale más el arroyo que se mueve
O la chépica fija a la ribera?
A lo lejos se oye una campana
Que abre una herida más, o que la cierra:
¿Es más real el agua de la fuente
O la muchacha que se mira en ella?
No se sabe, la gente se lo pasa
Construyendo castillos en la arena.
¿Es superior el vaso transparente
A la mano del hombre que lo crea?
Se respira una atmósfera cansada
De ceniza, de humo, de tristeza:
Lo que se vio una vez ya no se vuelve
A ver igual, dicen las hojas secas.
Hora del té, tostadas, margarina.
Todo envuelto en una especie de niebla.

Epitafio I

De estatura mediana,
Con una voz ni delgada ni gruesa,
Hijo mayor de profesor primario
Y de una modista de trastienda;
Flaco de nacimiento
Aunque devoto de la buena mesa;
De mejillas escuálidas
Yde más bien abundantes orejas;
Con un rostro cuadrado
En que los ojos se abren apenas
Y una nariz de boxeador mulato
Baja a la boca de ídolo azteca
-Todo esto bañado
Por una luz entre irónica y pérfida-
Ni muy listo ni tonto de remate
Fui lo que fui: una mezcla
De vinagre y aceite de comer
¡Un embutido de ángel y bestia

Epitafio II

Yo soy Lucila Alcayaga
alias Gabriela Mistral
primero me gané el Nobel
y después el Nacional

a pesar de que estoy muerta
me sigo sintiendo mal
porque no me dieron nunca
el Premio Municipal

Entonces

no se extrañen
si me ven simultáneamente
en dos ciudades distintas

oyendo misa en una capilla del Kremlin
o comiéndome un hot-dog
en un aeropuerto de Nueva York

en ambos casos soy exactamente el mismo
aunque no lo parezca soy el mismo

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Avant Première

fosse um deus

josé carlos peliano 

fosse um lagarto subiria os muros e mais acima em cada dia
sem correr atrás de insetos e fungos das plantas e do barro
deixaria as patas levitarem soltas em balé desnorteado
voaria em transe assimétrico com o rabo de frenético colibri

fosse um colibri desceria ao chão pelos troncos em cada bosque
deixaria flores de lado e sugaria as bocas de lesmas e caramujos
faria das asas patas pensas em correrias cambaleantes
apressaria em arrancos as penas de lagarto imaginário

fosse um desenhista aprontaria mundos e seres impensáveis
viraria de avesso a frente, o verso e a seiva do labirinto
até que não conseguisse mais ver a mim nos espelhos
coisas e seres seriam seres e coisas com a face do éden

mas de olhar distinto ao ver de si com o olhar do outro

Mário de Andrade

Eu sou trezentos...

Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
As sensações renascem de si mesmas sem repouso,
Ôh espelhos, ôh! Pirineus! ôh! caiçaras!
Se um deus morrer, irei no Piauí buscar outro!

Abraço no meu leito as milhores palavras,
E os suspiros que dou são violinos alheios;
Eu piso a terra como quem descobre a furto
Nas esquinas, nos taxís, nas camarinhas seus próprios beijos!

Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
Mas um dia afinal eu toparei comigo...
Tenhamos paciência, andorinhas curtas,
Só o esquecimento é que condensa,
E então minha alma servirá de abrigo.

Na rua aurora eu nasci

Na rua Aurora eu nasci
Na aurora da minha vida
E numa aurora cresci.

No largo do Paissandu
Sonhei, foi luta renhida,
Fiquei pobre e me vi nu

Nesta rua Lopes Chaves
Envelheço, e envergonhado,
Nem sei quem foi Lopes Chaves.

Mamãe! me dá essa lua,
Ser esquecido e ignorado
Como êsses nomes da rua.

Garoa do meu São Paulo

Garoa do meu São Paulo
- Timbre triste de martírios -
Um negro vem vindo, é branco!
Só bem perto fica negro,
Passa e torna a ficar branco.

Meu São Paulo da garoa
- Londres das neblinas finas -
Um pobre vem vindo, é rico!
Só bem perto fica pobre,
Passa e torna a ficar rico.

Garoa do meu São Paulo
- Costureira de malditos -
Vem um rico, vem um branco,
São sempre brancos e ricos...

Garoa, sai dos meus olhos.



(Nota: mantida a grafia da época.)

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

José Paulo Paes

Poética

Não sei palavras dúbias. Meu sermão
Chama ao lobo verdugo e ao cordeiro irmão.

Com duas mãos fraternas, cumplicio
A ilha prometida à proa do navio.

A posse é-me aventura sem sentido.
Só compreendo o pão se dividido.

Não brinco de juiz, não me disfarço de réu.
Aceito meu inferno, mas falo do meu céu.

a Maiacóvski

uns te preferem suicida

eu te quero pela vida
que celebraste na flauta
de uma vértebra patética
molhada no sangue rubro
de um crepúsculo de outubro

Hino ao sono

sem a pequena morte
de toda noite
como sobreviveer à vida
de cada dia?

Noturno

O apito do trem perfura a noite.
As paredes do quarto se encolhem.
O mundo fica vasto.

Tantos livros para ler
tantas ruas por andar
tantas mulheres a possuir...

Quando chega a madrugada
o adolescente adormece por fim
certo de que o dia vai nascer especialmente para ele.

Auto-epitáfio nº 2

para quem pediu sempre tão pouco
o nada é positivamente um exagero

domingo, 27 de novembro de 2011

POEMA DO BLOG

O soneto a seguir, Magia, de Os Pireneus e os Outros Eus, com fotos de Roberto Castelo e poemas meus, foi agraciado pelo elogio do falecido poeta Cassiano Nunes em texto publicado pelo Correio Brasiliense em 1996 como lembrando o grande poeta brasileiro Jorge de Lima:

Magia

Fazíamos poemas na janela
que falavam de nós em vários temas
e nos serviam como sentinela
para não nos tornarmos uns problemas.

Fantasia, aventura, caos, novela,
nossas emoções eram sempre extremas,
a calma vinha por trova singela
ou por uma janela de poemas.

Caminho entrecortado e imprevisível
foi-se abrindo e fechando a nossa frente
e os poemas contando a nossa vida.

Mas, eles hoje mostram o impossível
não foram eles feitos pela gente,
somos a invenção deles concebida.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Tomas Tranströmer (Prêmio Nobel de Literatura 2011)

 Poemas haikai


Os fios elétricos
estendidos por onde o frio reina
Ao norte de toda música.

O sol branco
treina correndo solitário para
a montanha azul da morte.

Temos que viver
com a relva pequena
e o riso dos porões

Agora o sol se deita.
sombras se levantam gigantescas.
Logo logo tudo é sombra.

As orquídeas.
Petroleiros passam deslizando.
É lua cheia.

Fortalezas medievais,
cidades desconhecidas, esfinges frias,
arenas vazias.

As folhas cochicham:
Um javali está tocando órgão.
E os sinos batem.

E a noite se desloca
de leste para oeste
na velocidade da lua.

Duas libélulas
agarradas uma na outra
passam e se vão

Presença de Deus.
No túnel do canto do pássaro
uma porta fechada se abre.

Carvalhos e a lua.
Luz e imagem de estrelas salientes.
O mar gelado.

A árvore e a nuvem

Uma árvore anda de aqui para ali sob a chuva,
com pressa, ante nós, derramando-se na cinza.
Leva um recado. Da chuva arranca vida
como um melro ante um jardim de fruta.
Quando a chuva cessa, detém-se a árvore.
Vislumbramo-la direita, quieta em noites claras,
à espera, como nós, do instante
em que flocos de neve floresçam no espaço.

Fachadas

Ao fim do caminho vejo o poder
Lembra uma cebola
com rostos sobrepostos
que vão caindo uns após outros…

Os teatros esvaziam-se. É meia-noite.
Letreiros flamejam nas fachadas.
O mistério das cartas sem resposta
afunda-se por entre a fria cintilação.

Sessão Especial

os dois Chicos

                                                josé carlos peliano

o velho Chico já carrega em seus braços até a foz um oceano
o mais novo represa, alaga e alumbra as águas na canção

um sabe o b a ba, be, bi, bo, bu dos mananciais e correntezas
o outro recupera o bu arqui som das margens, claves e bemóis

um chega à Holanda na cor, na majestade e no reino do Atlântico
o outro traz no nome e partituras a Holanda, a banda e a versão de Iolanda

os dois Chicos levam longe suas águas entoadas e luminosas
onde a vida canta e encanta com açúcar e com afeto cada dia
em todo o sorriso que sabe de cor e salteado como ser feliz

Poema do dia

Apagão

                       josé carlos peliano

o rosto cola à vidraça
a noite alonga a madrugada
a despedida se agarra no ar
a vida, qual vida? qual vida?

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Octavio Paz

Certeza
Se é real a luz branca
desta lâmpada, real
a mão que escreve, são reais
os olhos que olham o escrito?

Duma palavra à outra
o que digo desvanece-se.
Sei que estou vivo
entre dois parênteses.

Irmandade
Sou homem: duro pouco
e é enorme a noite.
Mas olho para cima:
as estrelas escrevem.
Sem entender compreendo:
Também sou escritura
e neste mesmo instante
alguém me soletra.

Teus Olhos
Teus olhos são a pátria do relâmpago e da lágrima,
silêncio que fala,
tempestades sem vento, mar sem ondas,
pássaros presos, douradas feras adormecidas,
topázios ímpios como a verdade,
outono numa clareira de bosque onde a luz canta no ombro
duma árvore e são pássaros todas as folhas,
praia que a manhã encontra constelada de olhos,
cesta de frutos de fogo,
mentira que alimenta,
espelhos deste mundo, portas do além,
pulsação tranquila do mar ao meio-dia,
universo que estremece,
paisagem solitária.

Sementes para um hino

O dia abre sua mão
Três nuvens
E estas poucas palavras

Violeta Parra

Gracias a la vida

Gracias a la Vida que me ha dado tanto
me dio dos luceros que cuando los abro
perfecto distingo lo negro del blanco
y en el alto cielo su fondo estrellado
y en las multitudes el hombre que yo amo

Gracias a la vida, que me ha dado tanto
me ha dado el oido que en todo su ancho
graba noche y dia grillos y canarios
martillos, turbinas, ladridos, chubascos
y la voz tan tierna de mi bien amado

Gracias a la Vida que me ha dado tanto
me ha dado el sonido y el abedecedario
con él las palabras que pienso y declaro
madre amigo hermano y luz alumbrando,
la ruta del alma del que estoy amando

Gracias a la Vida que me ha dado tanto
me ha dado la marcha de mis pies cansados
con ellos anduve ciudades y charcos,
playas y desiertos montañas y llanos
y la casa tuya, tu calle y tu patio

Gracias a la Vida que me ha dado tanto
me dio el corazón que agita su marco
cuando miro el fruto del cerebro humano,
cuando miro el bueno tan lejos del malo,
cuando miro el fondo de tus ojos claros

Gracias a la Vida que me ha dado tanto
me ha dado la risa y me ha dado el llanto,
así yo distingo dicha de quebranto
los dos materiales que forman mi canto
y el canto de ustedes que es el mismo canto
y el canto de todos que es mi propio canto

Gracias a la Vida
Gracias a la Vida
Gracias a la Vida
Gracias a la Vida

<><>
La jardinera
Para olvidarme de ti
Voy a cultivar la tierra,
En ella espero encontrar
Remedio para mis penas.
Aquí plantaré el rosal
De las espinas más gruesas,
Tendré lista la corona
Para cuando en mí te mueras.
Para mi tristeza violeta azul,
Clavelina rosa pa´ mi pasión
Y para saber si me corresponde
Deshojo un blanco manzanillón.
Si me quiere mucho, poquito, nada,
Tranquilo queda mi corazón.
Creciendo irán poco a poco
Lso alegres pensamientos
Cuando ya estés florecidos
Irá lejos tu recuerdo.
De la flor de la amapola
Seré su mejor amiga,
La pondré bajo de la almohada
Para dormirme tranquila.
Para mi tristeza violeta azul,
Clavelina rosa pa´ mi pasión
Y para saber si me corresponde
Deshojo un blanco manzanillón.
Si me quiere mucho, poquito, nada,
Tranquilo queda mi corazón

Marly de Oliveira

A suave pantera (duas primeiras estrofes)

1. Como qualquer animal,
olha as grades flutuantes.
Eis que as grades são fixas:
ela, sim, é andante.
Sob a pele, contida
- em silêncio e lisura -
a força do seu mal,
e a doçura, a doçura,
que escorre pelas pernas
e as pernas habitua
a esse modo de andar,
de ser sua, ser sua,
no perfeito equilíbrio
de sua vida aberta:
una e atenta a si mesma,
suavíssima pantera.

2. É suave, suave, a pantera,
mas se a quiserem tocar
sem a devida cautela,
logo a verão transformada
na fera que há dentro dela.
O dente de mais marfim
na negrura toda alerta,
e ser de princípio a fim
a pantera sem reservas,
o fervor, a força lúdica
da unha longa e descoberta,
o êxtase de sua fúria
sob o melindre que a fera,
em repouso, se a não tocam,
como que tem na singela
forma que não se alvoroça
por si só, antes parece,
na mansa, mansa e lustrosa
pelúcia com que adorna,
uma viva, intensa jóia.

A cidade

Sobre o rio, sobre as casas,
cúpulas, ponte, avenidas,
com acertos de acrobata,
pássaros metade luz,
metade sombra, levantam
o meio-dia de prata.

Nenhum silêncio mais puro
que o destes azuis prateados,
com cimos de catedral,
ciranda de ventos e anjos;
com aves de plumas negras,
negro ritmo nos telhados.

Ao longe campos perdidos
verdejam de hastes e canas.
E são espadas flexíveis,
verdes, livres oferendas.
E moinhos que vão rodando
duro rito de moendas.

No centro a praça mais ampla:
edifícios, plantas, água,
e bronze de monumentos.
Tudo tão perfeito e certo,
como se eu estivesse junto,
num ramo claro de vento.

Epigrama

Bom é ser árvore, vento:
sua grandeza inconsciente.
E não pensar, não temer.
Ser, apenas. Altamente.

Permanecer uno e sempre
só e alheio à própria sorte.
Com o mesmo rosto tranquilo
diante da vida e da morte.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Jorge Luis Borges

El Remordimiento

He cometido el peor de los pecados
Que un hombre puede cometer. No he sido
Feliz. Que los glaciares del olvido
Me arrastren y me pierdan, despiadados
Mis padres me engrendraron para el juego
Arriesgado y hermoso de la vida.
Para la tierra, el agua, el aire, el fuego
Los defraudé. No fui feliz. Cumplida
No fue su joven voluntad. Mi mente
Se aplicó a las simétricas porfías
Del arte, que entreteje naderías
Me legaron valor. No fui valiente.
No me abandona. Siempre está a mi lado
La sombra de haber sido un desdichado.

Everness

Sólo una cosa no hay. Es el olvido.
Dios, que salva en metal, salva la escoria
Y cifra en su profética memoria
Las lunas que serán y las que ha sido.

Ya todo está. Los miles de reflejos
Que entre los dos crepúsculos del día
Tu rosto fue dejando en los espejos
Y los que irá dejando todavía.

Y todo es una parte del diverso
Cristal de su memoria, el universo;
No tienen fin sus arduos corredores

Y las puertas si cierran a tu paso;
Sólo del otro lado del ocaso
Verás los Arquetipos y Esplendores.

El poema de los dons

Nadie rebaje a lágrima o reproche
Esta declaración de la maestria
De Dios, que con magnífica ironia
Me dio a la vez los libros y la noche.

De esta ciudad de libros hizo dueños
A unos ojos sin luz, que sólo pueden
Leer en las bibliotecas de los sueños
Los insensatos párrafos que ceden

Las albas a su afán. En vano el día
Les prodiga sus libros infinitos.
Arduos como los arduos manuscritos
Que perecieron en Alejandría.

De hambre y de sed (narra una historia griega)
Muere un rey entre fuentes y jardines;
Yo fatigo sin rumbo los confines
De esta alta y honda biblioteca ciega.

Enciclopedias, atlas, el Oriente
y el Ocidente, siglos, dinastias,
Símbolos, cosmos y cosmogonias
Brindan los muros, pero inutilmente.

Lento en mi sombra, la penumbra hueca
Exploro con el báculo indeciso,
Yo, que me figuraba el Paraíso
Bajo la especie de una biblioteca.

Algo, que ciertamente no se nombra
Con la palabra azar, rige estas cosas;
Otro ya recibió en otras borrosas
Tardes los muchos libros y la sombra.

Al errar por las lentas galerías
Suelo sentir con vago horror sagrado
Que soy el otro, el muerto, que habrá dado
Los mismos pasos en los mismos días.

Cual de los dos escribe este poema
De un yo plural y de una sola sombra?
Qué importa la palabra que me nombra
Se es indiviso y uno el anatema?

Groussac* o Borges, miro este querido
Mundo que se deforma y que se apaga
En una pálida ceniza vaga
Que se parece al sueño y al olvido.

(*Paul Groussac, também cego, antecedeu Borges na direção da Biblioteca Nacional)

Os poemas de Borges foram obtidos do livro-entrevista Borges na Luz de Borges de meu grande amigo poeta Thiago de Mello, Pontes Editores, Campinas, 1992.

domingo, 20 de novembro de 2011

POEMA DO MÊS

Soneto para Pia Degermark*
                                              José Carlos Peliano
milimetricamente embelezada
o sol esparramado nos cabelos
os cabelos de luz esparramada
sem mechas, sequer ondas ou novelos



esplendorosamente revelada
trigos e margaridas em seus pelos
pelos de uma pele alva, abençoada
onde a enfeitam por bem acolhê-los



eis que a tela é pequena em revelar
dois olhos florescendo à cor do dia
e a eles cede o dia o seu lugar!



boca de seiva pura em fantasia
que minha boca nunca irá beijar
inacabado sonho, um beijo Pia!


*(atriz do filme Elvira Madigan, Suécia, 1967) do livro inédito Âmbar

sábado, 19 de novembro de 2011

ZEN

One sees great things from the valley
only small things from the peak.
G.K. Chesterton

It is only with the heart
that one can see rightly;
what is essential is invisible to the eye.
Antoine de Saint-Exupéry

We are more curious about the meaning of dreams
than about things we see when awake.
Diógenes

Catch the vigorous horse of your mind.
Zen Saying

We shape clay into a pot,
but it is the emptiness inside
that holds whatever we want.
Tao Te Ching

Among the great things which are to be found among us,
the Being of Nothingness is the greatest.
Leonardo da Vinci

Late on the third day, at the very moment when, at sunset, we were making our way through a herd of hippopotamuses, there flashed upon my mind, unforeseen and unsought, the phrase, Reverence of Life".
Albert Schweitzer

Men argue, nature acts.
Voltaire

To see a World in a grain of sand,
And a Heaven in a wild flower,
Hold infinity in the palm of your hand
And eternity in an hour.
William Blake

A page from a journal of modern experimental physics will be as mysterious to the uninitiated as a Tibetan mandala. Both are records of inquiries into the nature of the universe.
Fritjof Capra

I'm astounded by people who want to "know" the universe when it's hard enough to find your way around Chinatown.
Woody Allen

It is as hard to see one's self as to look backwards without turning around.
Thoreau

The true value of a human being can be found in the degree to which he has attained liberation from the self.
Albert Einstein

The most terrifying thing is to accept oneself completely.
Carl Jung

If you gaze for long into the abyss, the abyss also gazes into you.
Nietzsche

Life is what happens to you while you're busy making other plans.
John  Lennon

Lift the stone and you will find me; cleave the wood and I am there.
Jesus

When the way comes to an end, then change - having changed, you pass through.
I Ching

No centro do ponto o abismo
não há como seguir a reta
tampouco retificar.
José Carlos Peliano

(à exceção do último, todos os textos vieram do livro The Little ZEN Companion, David Schiller, Workman Publishing, New York, 1994)

Florbela Espanca

Os versos que te fiz

Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados em mármore de Páros
Cinzelados por mim pra te oferecer.

Têm dolências de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!

Mas, meu Amor, eu não t'os digo ainda...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!

Amo-te tanto! E nunca te beijei...
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!

Fanatismo

Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida.
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!

"Tudo no mundo é frágil, tudo passa..."
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, digo de rastros:
"Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: Princípio e Fim!..."

Loucura

Tudo cai! Tudo tomba! Derrocada
Pavorosa! Não sei onde era dantes.
Meu solar, meus palácios, meus mirantes!
Não sei de nada, Deus, não sei de nada!...

Passa em tropel febril a cavalgada
Das paixões e loucuras triunfantes!
Rasgam-se as sedas, quebram-se os diamantes!
Não tenho nada, Deus, não tenho nada!...

Pesadelos de insônia, ébrios de anseio!
Loucura a esboçar-se, a enegrecer
Cada vez mais as trevas do meu seio!

Ó pavoroso mal de ser sozinha!
Ó pavoroso e atroz mal de trazer
Tantas almas a rir dentro da minha!

Maiakovski

1.*
Já é mais de uma hora você já deve estar na cama
Na noite corre a via láctea como um rio de prata
Não me apresso com telegramas urgentes
Não mais tenho por que te acordar te atormentar
Como se diz o incidente está encerrado
A canoa do amor se quebrou na vida cotidiana
Eu estou quites com a vida não há por que recordar
As dores as desgraças os erros recíprocos
Veja que silêncio existe sobre o universo
A noite cobriu o céu de tantas estrelas
Em horas como essa a gente se ergue a gente fala
Aos séculos à história ao universo...

(*versos dos fragmentos do bilhete de despedida do poeta em 14 de abril de 1930)

trechos de A Plenos Pulmões

Eu mesmo falarei
    sobre o meu tempo
          e sobre mim.

Eu falarei a vocês
como um vivo fala aos vivos

Eu também
                 da propaganda
                                       já estou farto
e seria bom para mim
                            alinhavar
                                       romances para vocês.
Seria mais rendoso
                                 e mais agradável.
Mas eu mesmo
                          me contive
                                             colocando o pé
na garganta
                     de minha própria canção.

2.
Na estatura
                  só você me ombreia,
fica pois,
               sobrancelha a sobrancelha,
ao meu lado.
                    Deixa
                              que eu faça alarde
como homem
                      da grandeza da tarde.

3.
Para nós,
               a rima
                         é um barril.
Barril de dinamite.
                             O verso, um estopim.
A linha se incendeia
                                 e quando chega ao fim
explode
             e a cidade em estrofe voa em mil.

4.
Nos outros eu sei onde se abriga o coração.
É no peito - todos sabem disso.
Comigo
a anatomia ficou louca.
Eu sou todo coração -
ele bate em todo o corpo.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Jorge de Lima

O acendedor de lampiões
Lá vem o acendedor de lampiões da rua!
Este mesmo que vem infatigavelmente,
Parodiar o sol e associar-se à lua
Quando a sombra da noite enegrece o poente!

Um, dois, três lampiões, acende e continua
outros mais a acender imperturbavelmente
À medida que a noite aos poucos se acentua
E a palidez da lua apenas se pressente.

Triste ironia atroz que o senso humano irrita:-
Ele que doira a noite e ilumina a cidade,
Talvez não tenha luz na choupana em que habita.

Tanta gente também nos outros insinua
Crenças, religiões, amor, felicidade
Como este acendedor de lampiões de rua!

O Princípio dos Quatorze

Há muita gente eu sei que não gosta de versos,
Por quê... não sei... talvez... porque não queira;
Daí uma asserção de críticos diversos:
Morrerá no Porvir a poesia inteira.

Eu me esteio a mim mesmo em pontos controversos:
A Ciência julgada austera e sobranceira
Pousa no fictício os pedestais emersos
Que sustêm uma bíblia eterna e verdadeira.

Vede: a Química conta as moléculas; dita
A Mecânica as leis tendo por base a inércia;
Outros mundos além a Astronomia habita...

Se mesmo o positivo é sonho e controvérsia
Nem Porvir, nem ninguém, cousa alguma desliga
A Ciência que sonha e o verso que investiga.


Então é necessário que as borrascas
venham cedo livrá-la da cobiça
que sobe e desce pelas suas cascas;

que entre raiz e flor há um breve traço:
o silêncio do lenho - quieta liça
entre raiz e flor, o tempo e o espaço.

Federico García Lorca

Canção

Lento perfume, coração sem gama
aspecto definitivo no redondo,
coração fixo, vencedor de nortes,
quero deixá-los e ficar só.

Na estrela polar decapitada.

Na bússola rasgada e submersa.

Réplica

Só um pássaro
canta.
O ar multiplica.
Ouvimos por espelhos.

Terra

Andamos
sobre um espelho
sem mercúrio,
sobre um cristal
sem nuvens.
Se os lírios nascessem
pelo avesso,
se as rosas nascessem
pelo avesso,
se todas as raízes
olhassem para as estrelas
e o morto não fechasse
os olhos,
seríamos como os cisnes.

Canção da laranjeira seca

Lenhador,
corta a minha sombra.
Liberta-me do suplício
de me ver sem laranjas.

Por que nasci entre espelhos?
O dia me faz girar
e a noite me copia
em todas as estrelas.

Quero viver sem me ver.
Sonharei que as formigas
e as penugens
são folhas e pássaros meus.

Lenhador,
corta a minha sombra.
Liberta-me do suplício
de me ver sem laranjas.

(tradução de Luiz Roberto Benati)

João Cabral de Melo Neto

Excertos de Morte e Vida Severina e outros poemas em voz alta

Desde que estou retirando
só a morte vejo ativa,
só a morte deparei
e às vezes até festiva;
só morte tem encontrado
quem pensava encontrar vida,
e o pouco que não foi morte
foi de vida severina
(aquela vida que é menos
vivida que defendida,
e é ainda mais severina
para o homem que retira).


Essa cova em que estás,
com palmos medida,
é a conta menor
que tiraste em vida.
É de bom tamanho,
nem largo nem fundo,
é a parte que te cabe
deste latifúndio.
Não é cova grande,
é cova medida,
é a terra que querias
ver dividida.
É uma cova grande
para teu corpo defunto,
mas estarás mais ancho
que estavas no mundo.
É uma cova grande
para teu corpo parco,
porém mais que no mundo
te sentirás largo.
É uma cova grande
para tua carne pouca,
mas a terra dada
não se abre a boca.


Vou na mesma paisagem
reduzida à sua pedra.
A vida veste ainda
sua mais dura pele.
Só que aqui há mais homens
para vencer tanta pedra,
para amassar com sangue
os ossos duros desta terra.
E se aqui há mais homens,
esses homens melhor conhecem
como obrigar o chão
com plantas que comem pedra.
Há aqui homens mais homens
que em sua luta contra a pedra
sabem como se armar
com as qualidades da pedra.

Cora Coralina

Assim eu vejo a vida

A vida tem duas faces:
Positiva e negativa
O passado foi duro
mas deixou o seu legado
Saber viver é a grande sabedoria
Que eu possa dignificar
Minha condição de mulher,
Aceitar suas limitações
E me fazer pedra de segurança
dos valores que vão desmoronando.
Nasci em tempos rudes
Aceitei contradições
lutas e pedras
como lições de vida
e delas me sirvo
Aprendi a viver.

Aninha e suas pedras

Não te deixes destruir...
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.


"Eu que sonhei por tanto tempo em ser livre
Me prenda em seus braços
É o que eu te peço."


Não sei se a vida é curta ou longa para nós, mas sei que nada do que vivemos tem sentido, se não tocarmos o coração das pessoas.
Muitas vezes basta ser: colo que acolhe, braço que envolve, palavra que conforta, silencio que respeita, alegria que contagia, lágrima que corre, olhar que acaricia, desejo que sacia, amor que promove.
E isso não é coisa de outro mundo, é o que dá sentido à vida. É o que faz com que ela não seja nem curta, nem longa demais, mas que seja intensa, verdadeira, pura enquanto durar. Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina

Hilda Hilst

de sonetos que não são

Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha


Objeto de amor, atenta e bela.
Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha.)


Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel


Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra.

de luz do desejo

Colada à tua boca a minha desordem.
O meu vasto querer.
O incompossível se fazendo ordem.
Colada à tua boca, mas descomedida

Árdua
Construtor de ilusões examino-te sôfrega
Como se fosses morrer colado à minha boca.
Como se fosse nascer
E tu fosses o dia magnânimo
Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer.

de Amavisse

Como se te perdesse, assim te quero.
Como se não te visse (favas douradas
Sob um amarelo) assim te apreendo brusco
Inamovível, e te respiro inteiro


Um arco-íris de ar em águas profundas.
Como se tudo o mais me permitisses,
A mim me fotografo nuns portões de ferro
Ocres, altos, e eu mesma diluída e mínima
No dissoluto de toda despedida.


Como se te perdesse nos trens, nas estações
Ou contornando um círculo de águas
Removente ave, assim te somo a mim:
De redes e de anseios inundada.



Entrevista: Hilda Hilst

Por Pedro Maciel

‘Em 50 anos serei considerada genial’

Às vésperas dos 70 anos, escritora diz que a maturidade dá a certeza que não compreendemos nada.

Nascida em Jaú, em 1930, Hilda Hilst estreou em 1950, com o volume de poemas “Presságio”. Desde então publicou mais de 30 livros de poesia, narrativa e teatro. Hoje a escritora de “Tu não te moves de ti” garante que parou de escrever por ter esgotado em sua obra a necessidade “imperiosa” de se expressar que, segundo ela, levou à literatura. A poeta, que respondeu às perguntas por escrito, discorre sobre vários temas numa linguagem repleta de reticências _ e por isso completamente próxima à sua obra. As respostas de Hilda Hilst são quase fábulas, falas um tanto comovidas com a existência. “Não sei se a minha vida daria boa poesia”, duvida ela, para quem a poesia, desde Shakespeare, jamais mudou nada no mundo.


1. Hilda, você escreve para responder perguntas que às vezes não têm respostas?

- Na maior parte da vezes sim. No meu texto Qadós, por exemplo, isso se re­vela mais insistentemente. O personagem, desde criança, já perturbava os pais por ser acentuada­mente perguntante e recebia os apelidos de Qadós-pergunta-coisa, Qa­dós-disseca-tripa. Depois, já adulto, continuou se perguntando:


“(Qadós)... quando comecei a perguntar de manhãzinha:

O que me dizes do administrador do Cosmos?

E o administrador sabe de que maneira deve ser administrado para che­gar com sabedoria e perplexidade ao seu último estágio?

E se ele, o administrado sabe disso, que importância tem o admi­nistra­dor?

Fui indo aos solavancos muitas horas e terminei com esta jóia: o meu ser pergunta é um estado imutável?”


Mas escrevo principalmente pela necessidade imperiosa de me expressar.


2. Vale a pena escrever poesia? Não seria melhor transformar a vida em poesia do que fazer poesia com a vida?

- Não sei o que você quer dizer com “valer a pena”. Quer dizer fama, prestígio, di­nheiro? Palavras simples podem significar coisas complexas. Heidegger escre­veu um verdadeiro tratado sobre “O que é uma coisa?”. Poesia é a necessidade de se expressar. Não sei se a minha vida daria boa poesia. Sei que antes de tudo, importa poder se ex­pressar.


3. A poesia é capaz de transformar o mundo?

- Não acho que seja. Mesmo um grande poeta não pode transformar o mundo. Shakespeare era deslumbrante mas não transformou o mundo.


4. Hoje em dia é possível surgir um poeta que tenha a voz do povo ou a poesia nes­tes tempos pós-modernos é apenas dos poetas so­litários?

- No Brasil, a voz do povo é o futebol, a música, a dança. Se “voz do povo é voz de Deus” talvez Deus goste muito de dançar. Sei muito pouco sobre Deus. Talvez ele passe horas falando ao telefone e por isso tudo está como está. Mas, mesmo solitário, o poeta pode ter várias vozes. Os grandes poetas são sempre solitários e falam muito so­bre a ausência.


5. Octávio Paz diz que “a história da poesia moderna é a do contí­nuo dilaceramento do poeta, dividido entre a moderna concepção do mundo e a presença às vezes intolerável da inspiração.”

- A inspiração existe, embora João Cabral não acredite. Ela vem subitamente e pode dar até febre física. É magnífico receber algumas vezes a inspiração. É um dom divino com o qual somos agraciados.


6. Ainda hoje nascem poetas simbolistas e saudosistas, sonetei­ros e bordadeiras. Se pelo menos fossem repentistas...

- Se você se refere a “bordadeiras” como aquelas mulheres que durante a revolu­ção francesa assistiam aos julgamentos bordando meias e eram deno­minadas de tricoteuses, isso é terrível, pode ser medonho. Acho que sem­pre é bom quando nasce um bom po­eta, seja repentista ou não. Mas é ne­cessário tentar inovar.


7. Poeta é aquele que sobrevoa o abismo?

- Sim. Sobrevoei muitos mas, nunca tive coragem de me lançar sobre eles. Sem­pre tive uma boa dose de auto-preservação.


8. Há algum sentido, se é que há algum sentido, nas palavras e fra­ses do poema?

- Aquele que se expressa, sempre tenta fazer algum sentido. Não um sen­tido convencional, muito menos na poesia. Ele não fala sobre o nada e para nada.


9. O ritmo é o núcleo da poesia?

- Não só. É um conjunto. O ritmo, a forma, o fundo.


10. Valéry comparou a poesia com a dança e a prosa com a mar­cha...

- Minha prosa não é uma marcha, é sempre uma prosa poética. Não acredito nessa di­ferença.


11. A palavra poética é a revelação da própria imagem? Um po­ema só tem sentido a partir de suas imagens?

- Um poema não tem sentido apenas a partir de imagens, mesmo as ima­gens tendo grande importância. Nos meus versos “Como se te perdesse assim te quero. / Como se não te visse (favas douradas / Sob um amarelo) assim te apreendo brusco / Inamoví­vel, e te respiro inteiro / Um arco-íris de ar em águas profundas.” existem lindas ima­gens mas, não apenas isso.


12. Falemos da crítica. Os críticos mandarins ignoram a sua po­esia ou a tra­tam como se você fosse uma poeta apenas erótica. Alguns a classificam como uma poeta por­nográ­fica...

- Os críticos mandarins que leram minha poesia não a ignoram e sabem que não posso ser classificada de poeta erótica. Anatol Rosenfeld, Jorge de Sena, Antônio Hou­aiss falaram muito bem sobre meu trabalho. Dos meus 22 livros de poemas, apenas um, “As Bufólicas” pode ser considerado pornográfico mas, eu sei que ele tem principal­mente humor. E dos meus 11 de prosa, apenas 3 podem ser conside­rados pornográficos, mesmo não o sendo exclusivamente. Wilson Martins usou er­roneamente a palavra “bordelesca” ao se referir ao meu livro “Do Desejo” mas ele não o deve ter lido. Po­rém, estou em boa companhia. Du Boccage também sofreu esse tipo de confusão, mesmo tendo, na quase totalidade, uma obra lírica, infelizmente desconhecida pela grande maioria. D. H. Lawrence comentou muito bem o que é pornografia, em 1925 no livro “Pornografia e Obscenidade”. Não sei por que ainda fazem tanta confusão hoje em dia. Nos jornais, adoram colocar tí­tu­los chamativos. A “Folha de São Paulo”, na rese­nha do meu livro “Estar Sendo-Ter Sido”, usou o título “Uma Jeremi­ada Pornográfica”, deixando claro que não entenderam do que se tratava. No jornal francês “Liberation”, Eric Loret fez um comen­tário brilhante sobre “A Obscena Senhora D”, comparando-me a Ba­taille. Alguém, na redação, colocou o título “La co­chonne Hilsterique”. Acho que nem na França me entenderam.


13. Nietzsche diz que “é por nossas virtudes que somos bem puni­dos”.

- Não concordo inteiramente. Acho que quase ninguém lê Nietzsche, que foi uma pessoa deslumbrante. Um dia ele se comoveu tanto vendo um ca­valo sendo açoi­tado que começou a chorar, abraçou e agarrou a cabeça do cavalo, caiu no chão e acabou sendo levado para o hospício.


14. A leitura crítica deveria ser uma interpretação da beleza como um objeto de saber...

- Você conhece a beleza? A idéia da beleza é muito difícil. Você pode ter a ilusão da beleza que você já viu um dia mas, não sabe onde. Alguns místicos contempla­ram a beleza em Deus, durante os seus êxtases. Santa Angela de Foligno, que vi­veu no século XIII, disse ter visto a beleza de Deus numa visão. Mas, acrescen­tou que “Ali não havia nem sombra de amor”. Isso me deixou tão impressionada que comprei sua biografia. Tal­vez nós todos, um dia, tenhamos visto o rosto de Deus e por isso evocamos a beleza.


15. Você parou de escrever por causa da crítica, ou das editoras que não di­vulgam os poetas, ou ainda porque os leitores estão surdos para a poesia?

- Parei de escrever quando senti que tinha dito tudo o que eu sabia e da melhor forma que fui capaz. Fiz o esforço maior que pude para me ex­pressar. Não adianta mais dar explicações nem entrevis­tas. Se não entenderam, eu não sei dizer de outra forma. Se me vi­esse al­guma coisa com a força que me vinha, voltaria a escrever, seja prosa ou po­esia. Mas, não tem mais vindo. À medida que vamos envelhecendo, descobrimos que não compreendemos nada.


16. Gide diz que “todas as coisas já estão ditas mas, como nin­guém escuta, é pre­ciso re­começar sempre”.

- Blake, Bataille, Rimbaud, Baudelaire, Beckett, Henry Miller, tan­tas outras pessoas deslumbrantes já dis­se­ram. Eu sinto que já disse tudo o que devia. Acho que os novos artistas, os novos talen­tos, devem recomeçar sem­pre sim.


17. Ler poemas em voz alta irrita os deuses aposentados...

- Se são deuses, nunca são aposentados. É preciso saber ler muito bem a poesia. Pa­blo Neruda, Drummond, não sabiam ler bem seus poemas. Ou­vindo uma gra­vação de Cecília Meirelles declamando seus poemas fiquei surpresa. Eu sempre soube ler poesia muito bem, tanto a minha própria como a dos outros. Quando eu tinha 19 anos, Oswaldo de Andrade me fez ler o poema “Une Charogne” do “Flores do Mal”, de Baudelaire, em voz alta.


18. Você concorda que, geralmente, os poetas são aplaudidos por­que traba­lham em fa­vor da língua comum e não porque inventam uma forma origi­nal de linguagem?

- Não da língua comum. Quando você escreve poesia ou prosa, tua von­tade é sempre dar um passo além. Como já teve Shakespeare, Rimbaud, Joyce e tantos outros maravi­lhosos e geniais, é muito difícil dar esse passo, ser original.


19. Falemos do tempo. A eternidade está no presente?

- Os antropólogos dizem que para todos os homens a ação onírica une o passado e o futuro no presente, e nos sonhos o espaço inexiste. O Zen questiona muito isso do Ali e Agora, a eternidade estaria no aqui e agora. Mas não sabemos o que é Eternidade.


20. A morte não tem importância, desde que haja alguma coisa do outro lado...

- Ela não tem importância porque ela é inevitável.


21. Nunca somos geniais quando morremos...

- Podemos ser muito geniais ao morrer. As últimas palavras de Kafka foram “Para o poço, para o fundo do poço filho de reis”. Rimbaud despediu-se da sua irmã, refe­rindo-se ao dia seguinte da sua morte, dizendo“Eu estarei embaixo da terra e tu caminharás ao sol”. Eu apenas diria “Que maçada”. Daqui há 50 anos serei conside­rada genial. Principalmente quando morre­mos podemos ser geniais.


2 poemas inéditos


Ai, que translúcido Te fazes

Que maravilha Teus ares

Ai, bem-querer de mim!

Tu

Nos Teus palanquins do alto

Olhando-me tão ferida

Tão mula velha

Tão carne de despedida

Tão ossos

Tão tudo que regozija

Tua garganta de brisa!

Vem. Engole-me inteira

No Teu exílio de esteiras!

II


No Teu leito de lírios

Lambe-me o pêlo

Agora reluzente

De remansos de zelo.

Devolve-me a cabeça

(Pois mula que sou

E deitada com o Pai

Isso talvez se faça ou aconteça)

Rodeia-a de rosas

Como os humanos fazem

À guisa de louros

Com os seus mais preclaros.

Barganha-me nas feiras

Em proveito Teu:

Mula que se fez musa

(Porque deitou com Deus)

Na grande noite escura

Do Teu riso.

2 poemas não-inéditos


(Alcoólicas / DO DESEJO)


I

a Jamil Snege


É crua a Vida. Alça de tripa e metal.

Nela despenco: pedra mórula ferida.

É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.

Como-a no livor da língua

Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me

No estreito-pouco

Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida

Tua unha plúmbea, meu casaco rosso.

E perambulamos de coturnos pela rua

Rubras, góticas, altas de corpo e copos.

A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.

E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima

Olho d’água, bebida. A vida é líquida.
(DO AMOR)


XXIII


Essa lua enlutada, esse desassossego

A convulsão de dentro, ilharga

Dentro da solidão, corpo morrendo

Tudo isso te devo. E eram tão vastas

As coisas planejadas: navios,

Muralhas de marfim, palavras largas

Consentimento sempre. E seria dezembro.

Um cavalo de jade sob a águas

Dupla transparência, fio suspenso

Todas essas coisas na ponta dos teus dedos

E tudo se desfez no pórtico do tempo

Em lívido silêncio. Umas manhãs de vidro

Vento, a alma esvaziada, um sol que não vejo


Também isso te devo.


poesia


Presságio - Revista dos Tribunais, 1950

Balada de Alzira – Edições Alarico, 1951

Balada do festival – Jornal de Letras, 1955

Roteiro do silêncio – Anhambi, 1959

Trovas de muito amor para um amado senhor-

Anhambi, 1959; Massao Ohno, 1961

Ode fragmentária - Anhambi, 1961

Sete cantos do poeta para o anjo - Masso Ohno, 1962

Poesia (1959-1967) – Editora Sal, 1967

Júbilo, memória, noviciato da paixão - Massao Ohno, 1974

Poesia (1959-1979) – Quíron, 1980

Da morte. Odes mínimas – Massao Ohno,

Roswitha Kempf, 1980

Cantares de perda e predileção – Massao Ohno/

Lídia Pires e Albuquerque Editores, 1980

Poemas malditos, gozosos e devotos - Massao Ohno/

Ismael Guarneli Editores, 1984

Sobre a tua grande face - Massao Ohno, 1986

Amavisse- Massao Ohno, 1989

Alcoólicas – Maison de vins, 1990

Bufólicas – Massao Ohno, 1992

Do desejo – Pontes, 1992

Cantares do sem nome e de partidas - Massao Ohno, 1995

Na bibliografia de Hilda, acrescentar

Do Amor --- SP: Edith Arnhold- Massao Ohno Editor, 1999


teatro (inédito)


A possessa, 1967

O rato no muro, 1967

O visitante, 1968

Auto da Barca de Camiri

Aves da noite, 1968

O verdugo, 1969

A morte do patriarca, 1969


prosa


Fluxo-floema – Perspectiva, 1970

Qadós – Edart, 1973

Ficções – Quíron, 1977

Tu não te moves de ti – Cultura, 1980

A obscena senhora D – Massao Ohno, 1982

Com meus olhos de cão e outras novelas –

Brasiliense, 1986

O caderno rosa de Lory Lambi – Massao Ohno, 1990

Contos d’escárnio/Textos grotescos – Siciliano, 1990

Cartas de um sedutor – Paulicéia, 1991

Rútilo nada – Pontes, 1993

Estar sendo – Ter sido – Nankin, 1997

Cascos e carícias – Nankin, 1999


Entrevista publicada em 25 de dezembro de 1999, caderno “Prosa & Verso”; Jornal “O Globo”

Pedro Maciel é autor do romance “A Hora dos Náufragos”, Ed. Bertrand Brasil. E-mail: pedro_maciel@uol.com.br